quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Dei uma melhorada no texto da crônica que fiz comparando o LM (Módulo Lunar) a um besouro. aquela continua lá, mas lanço a nova versão aqui.

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                       E um “besouro” pousa na lua.
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         “Houston, a ‘Águia’ pousou”, anunciou Neil Armstrong, junto a Edwin “Buzz” Audrin, assim que sentiram que o trem de pouso do Módulo Lunar tocou e se acomodou ao chão da Lua. “Águia” era o “apelido oficial” do Módulo Lunar – a nave que fora projetada para pousar na Lua, decolar dela e, enfim, voar em sua “atmosfera”; Houston, o nome da cidade que abrigava o Centro de Controle de Missões da NASA – só pra situar melhor, trata-se de uma das missões tripuladas do projeto Apollo; no caso, o ‘Apollo 11’, a primeira que levou o homem a pisar na superfície do satélite natural da terra. O terceiro astronauta desta missão, Michael Collins, ficara a bordo do Módulo Duplo de Comando/Serviço – a nave que aguardava, em órbita lunar, a alunissagem (o pouso na Lua) da outra; Era julho de 1969. As horas seguintes à frase dita pelo comandante são conhecidas e, quanto a nós, vamos apenas nos ater ao espantoso engenho voador chamado Módulo Lunar.

Pois bem, entendo que, no projeto Apollo, um erro de marketing foi apelidar de “Águia” o Módulo Lunar – que de águia, afinal, não tinha nada. Observem por todos os ângulos; Observem o voo de tal nave. Assemelha-se a um besouro e não a uma águia. Sei que em sua concepção completa (ainda portando o “estágio de descida”), devido à disposição das pernas do trem de pouso, aceitava-se que se “assemelhava” a uma aranha... Mas, mesmo com aquelas quatro pernas abertas, quando voa em descida ao encontro do chão da Lua é um besouro que claramente se vê... Tem-se ali, no comportamento da carroçaria pertinente ao “estágio de descida”, tudo de um besouro em voo descendente – o “gingado”, a “ausência” de asas, a imprecisão lateral, a impressão de que não irá “frear a tempo”. 

Para a decolagem, o Módulo Lunar se tornava menos complexo, pois descartava na superfície da Lua todo o aparato necessário ao “estágio de descida”; No entanto, o que se vê autoprojetar para as alturas é, claramente, ainda um besouro. O “estágio de subida” do Módulo lunar tem, enfim, tudo de um besouro em voo ascendente – tem-se ali a “ausência” de asas, tem-se a imprecisão lateral... além da medonha impressão que não lhe haverá um “porto seguro”.

E, de fato, quanto ao besouro inseto, dá-nos a impressão que faz seu “estágio de descida” com as pernas abertas e “estagio de subida” com elas recolhidas, sendo que, em qualquer dos casos, sempre se nos apresenta destituído de asas e... sem rumo.

Também, é fato divulgado que o Módulo Lunar do Apollo 11, mesmo programado pra cumprir uma trajetória pré-determinada, ao iniciar a operação final de pouso na Lua, tomou rumo próprio e afastou-se uns seis quilômetros do “ponto x” marcado para a alunissagem. Este desnorteamento inesperado fez com que os dois astronautas interviessem e lhe tomassem, emergencialmente, o comando... Vejam que o inseto besouro assim se comporta; Vem do alto num voo até gracioso, mas nada indica que vai exatamente pousar. Como ninguém lhe toma os comandos, vai chocar-se contra um poste, parede ou lâmpada – e, depois disso, só conseguirá voar novamente se não forem sérias as avarias que certamente sofrerá em seu exoesqueleto... Pensando bem, talvez a NASA não tenha batizado o Módulo Lunar de “besouro” por precaução; pra não trazer mau agouro.

E, entende-se. Não haveria glamour algum, após o primeiro veículo tripulado de construção humana pousar em outro mundo, seu comandante avisar a base na terra: “Houston, o besouro pousou”.

Mas, partamos para algumas vantagens. Se “besouro”, as crianças iriam se interessar mais pelas miniaturas do Módulo Lunar, tornando-o mais “universal” – aquela simulação de voo que Tom Hanks faz com o brinquedo para o filho no filme ‘Apollo-13’ ficaria mais “realista” se manuseasse um “besouro” e não uma “águia”.

O Módulo Lunar, uma nave que, evidentemente, só tinha a ver com a Lua, fora, antes, experimentada aqui na terra. Se na Lua, sem atmosfera e de força gravitacional bem menor que a terrestre, ele apresentou um “voo de besouro”, ainda que satisfatório e seguro, nos testes em nossa atmosfera ficara – não há outro termo a usar – completamente “doidão” no ar. Nesses testes – documentado está – muito voo terminou com a ejeção do piloto, enquanto o “besouro lunar” se esborrachava no chão, ou num poste, ou numa parede... Isso dá uma ideia de quão complexo foi os preparativos pra se poder pousar na Lua (e escapar dela) com segurança.


Ainda quanto ao Módulo Lunar, muito mais estrambotices pode-se constatar nele.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Crônica publicada em primeira mão no jornal impresso A Gazeta (de Lavras-MG e região) em 16/10/2015 



                                   Dia do(a) Motorista


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Caso resolva sair por aí a perguntar as pessoas – especialmente àquelas que já possuam carteira de motorista – o que significa ou a que se refere a sequência de palavras Admissão, Compressão, Explosão e Descarga, a resposta que majoritariamente obterá (faça o teste!) será a seguinte: “Deixa eu ver; me é familiar... Ah, já sei, tem no livrinho da autoescola!”. Após essa resposta a conversa tenderá a parar por aí, porém haverá casos em que ocorrerá reviradas em gavetas em busca do tal livrinho da autoescola. Também, em cota ínfima, poderá acontecer o seguinte: a pessoa “lembrará” o que é Admissão e, procurando uma correlação mais segura para a palavra, a relacionará ao ato de entrar para algum emprego ou entidade – “ser admitida” e tal. Então, caso você decida ir em frente, quanto a segunda palavra – a Compressão – poderá ouvir o seguinte: “é tipo aquela borrachinha que a moça amarra no braço pra fazer o exame de sangue; ela é colocada com pressão”. Então você pede outro exemplo e ouve que “em liquidações de roupas, as que estão fora de estação, ficam com ‘preção’”. Você insiste e poderá ouvir ainda: “tem também o caso da pessoa ser boa, compreensiva”. A essas alturas você quer saber aonde vai dar a conversa e pede o significado da terceira palavra. Fica sabendo então que existe uma sobremesa de nome “explosão de chocolate”... Você faz um ar de repugnância a açúcar e ouve que há, também, a muito falada... “explosão de caixa eletrônico”. Sobra então a quarta palavra – a Descarga – e te esclarecem de imediato que “essa e fácil”, afinal, “todo mundo possui em casa”... Pois bem, se você não desiste e continua a pesquisa, poderá ocorrer, numa chance em mil, um segundo caso. Você se depararia com o seguinte: a pessoa diz que entende, sim, a sequência de palavras da qual fala e que, por sinal, são elas um resumo de sua vida, pois em situações estressantes, a princípio admite, depois compreende, mas logo explode e tem de procurar um escape qualquer... Se você pesquisa mais, poderá ainda, nesse caso numa chance em um milhão, pintar um terceiro e curioso caso. Nesse, será entendido que o que falas tem a ver mesmo é com o “Quarteto Fantástico” (aquele filme)... Entenderás que há ali um explosivo Coisa, um compreensivo Homem Borracha, uma moça que está sempre escapando, um cara que pega fogo e tal... E haverá também uma minoria que saberá, afinal, do que trata as tais quatro palavras em sequência – e, entre eles, estarão os doutores na questão que, deixando de lado o parecer do livrinho da autoescola, poderão trazer uma luz, explicando: Nos motores de combustão interna, seja obtida a explosão por pressão de compressão ou vinda de centelha de agente intermitentemente em ignição, é considerado o tempo de trabalho, unicamente a explosão, sendo que os outros três tempos são “arrastados” a fazer a sua parte – Admissão, Compressão e Escape (ou Descarga) vão “no embalo da coisa” e obedecem confecção mesma do engenho motor e, de acordo com o volume de combustível a ser admitido na câmara de explosão se determinará a dimensão tanto das válvulas de Admissão quanto das válvulas de Descarga, lembrando que, no mais, nem Nicolaus Otto (o inventor do motor) se preocupou com isso a princípio (...)... Basta!

De uma coisa dessas só pode mesmo sair é gás carbônico e, com certeza, dirige-se muito bem sem saber o que tal sequência de palavras tem a ver com o automóvel. Mas, em auxilio a quem ao menos se recordar que o enrosco está no livrinho da autoescola, fica a dica de uma resposta boa de lembrar (quase em verso, pra facilitar).

Admissão, Compressão, Explosão e Descarga é a principal coisa que faz o carro andar/ E quanto mais você “pisa” mais acontece/ E em muito acontecendo, bebe gasolina pra danar.

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sábado, 10 de outubro de 2015

                                      Um pouco de Dízimo...
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Não se visa aqui discutir o dízimo nas religiões. Temos a respeito do dízimo nos Evangelhos, no entanto. Na Bíblia tem-se muito quase que por “códigos” – daí as várias interpretações – e talvez dízimo requeira, também, outras maneiras de ser entendido.
(...) Como começar? Seria ‘um pouco dE dízimo’ ou ‘um pouco dO dízimo’? Vamos de “dE”.
Um pouco de dízimo talvez esteja na paciência em ajuntar e acondicionar latinhas e passa-las àquele moço que lhes dá tanto valor porque vendendo-as consegue completar o seu mês.
Um pouco de dízimo talvez esteja em deixar que alguém capine aquele seu lote; Em mesmo pagar o preço que esse alguém venha a pedir para fazer o serviço.
Um pouco de dízimo talvez esteja em passar a outro a pintura do muro ou da casa.
Um pouco de dízimo talvez esteja em “mandar” por cabo naquela velha panela, ou por asa na vasilha há tanto encostada.
Um pouco de dízimo talvez esteja até – sei lá! – naquele um real que lhe foi requisitado pra tomar uma cachaça.
Um pouco de dízimo talvez esteja em doar algo que já não lhe sirva.
Um pouco de dízimo talvez esteja em não recorrer tanto a uma multa, quando tens certeza que a deves.
Um pouco de dízimo talvez esteja no ato de um chefe, numa empresa, “autorizar” um pequeno aumento a algum empregado, mesmo sabendo que ele trabalharia perpetuamente sem tal pequeno aumento.
Um pouco de dízimo talvez esteja em às vezes comprar do “salgadinho” que lhe vem à mesa – e deixar pra outros tantos dias aqueles de seu gosto.
Um pouco de dízimo talvez esteja em não se importar – e não cobrar – o arranhão no carro.
Um pouco de dízimo talvez esteja até em não brigar tanto numa partilha – ou, nem brigar.
Um pouco de dízimo talvez esteja em pagar uma “pensão” não mais obrigatória.
Um pouco de dízimo talvez esteja em deixar pra lá uma dívida a receber.
Um pouco de dízimo talvez esteja em comprar o brinquedo de madeira mesmo sabendo que a criança destinatária não ligará para ele.
Um pouco de dízimo talvez esteja em comprar o doce, mesmo que estejas diabético.
Um pouco de dízimo talvez esteja em pagar o preço mesmo que vale o que negocias, mesmo que o outro esteja com a “corda no pescoço”.
Dito isto, pode-se até argumentar que aqui confunde-se dízimo com caridade. Mas não é a caridade um involuntário dízimo?

E pode-se, sim, ter mais tempo para os filhos. O travesseiro pode, sim, vir a parecer-nos mais macio.
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domingo, 27 de setembro de 2015

Em breve novas postagens. A lacuna se deu devido ao trabalho em um projeto mais extenso - e que resolvi adiar. Abraço a todos!

sábado, 1 de agosto de 2015


     
 


Discutindo futebol, religião e política.

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Dois amigos matutavam a respeito do persistente bordão “política, religião e futebol não se discute”. Perguntavam-se: o que levara temas tão dessemelhantes a serem ajuntados numa mesma categoria? – haveria fator que os unisse? Não encontraram resposta, obviamente. E após constatarem que absolutamente nada (a não ser metafóricas torneiras) poderia dar algo de comum aos referidos assuntos, restou-lhes, distintivamente, fazer deduções.

Futebol: O começo de um campeonato é como uma torneira toda aberta, jorrando água a muitos disputadores; O final é quando essa mesma torneira, já então fechada, fica unicamente sob a contemplação do vencedor. No processo, a regra é que tal torneira receberá, aos poucos, aperto para ser fechada e, assim sendo, gradativamente fará diminuir a quantidade de disputadores. A torneira atingirá seu filete mais fino quando a disputa se der entre os dois últimos – de onde sairá o vencedor. No entanto, quando a torneira receber a última apertura para ser então considerada fechada, tal instante será mínimo ao vencedor... porque a torneira “pulará” – “passará direto” – e de novo ficará escancarada, jorrando água novamente. Em sendo assim, todos os disputadores voltarão correndo a ela – será o início de novo campeonato. E isso ano após ano, década após década, século após século, milênio após milênio... Deduziram que não é vã a discussão – porém, inócua. Portanto, apenas não imprescindível.

Política: Diversas torneiras diferenciadas por cor e disponibilizadas em algum momento a cada um em particular. Uma só torneira poderá ser escolhida por cada um (que poderá optar por nenhuma) e, ao ser aberta, dará um único jato de tinta de sua respectiva cor. Cada torneira fica ligada – por canos plenamente visíveis – à sua caixa, que contêm, então, sua tinta respectiva. Todas as caixas de tinta estão à vista e contêm, em letras garrafais, dizeres com suas intenções e ainda, cada qual traz em si sua cor inerente – não há como confundir. E existe um mural (um mural vital), comum a todos, que será pintado na cor mais escolhida – que será determinada pela torneira mais vezes for aberta. Se comum a todos, de tal mural pretende-se que seja sempre íntegro... Íntegro em todos os sentidos positivos que carregam o termo. É dado a cada um escolher ao menos a cor que o mural terá por algum tempo, porque não há unanimidade nem mesmo quanto à maneira de mantê-lo íntegro. E então, após a pintura, por muito tempo uns verão no mural a cor que não escolheram e outros a cor que escolheram. Por sua vez o mural é “sensível” à cor que recebe e isso poderá alterar ou interferir – ou não – em sua recomendável condição de íntegro... Deduziram que bom é que se discuta qual torneira cada um deverá abrir; E, que nesse caso, a discussão é imprescindível e, muitas vezes, vital.

Religião: Agrupamentos de pontas de canos sem torneiras, espalhados por todos os cantos da terra, cada qual jorrando água constantemente. São agrupamentos distintos; Alguns apenas se parecem entre si e há os que são exatos opostos. Sabe-se, no entanto, que em relação a cada tipo de agrupamentos de canos, não os há em todo lugar... Mas tem-se que em todo lugar sabe-se que religião alude a uma “luta entre dois lados” – o bem contra o mal. Vem então cada um com sua torneira e a coloca num dos canos do agrupamento que desejar – ou que for instado a colocar. De qualquer maneira terá secreto e completo poder sobre ela; Poderá controlar sua abertura; poderá mantê-la fechada. Sabe-se que os agrupamentos de canos tem origem nalguma caixa que os abastece então, mas não se vê caixas e nem o caminho que os canos percorrem.  O que mais se entende é que há mais de uma caixa e que apenas uma caixa é a certa... E cada um acredita, muito evidentemente, que o agrupamento de canos em que pôs sua torneira é o que leva à caixa certa e, portanto, os outros, à caixas erradas. Mas se religião alude a uma definida “luta entre dois lados” e comumente elas escolhem um lado em comum – o do bem – muitos dos agrupamentos de canos, mesmo diferentes a quem os entenda diferentes, mesmo se de fato diferentes em sua forma, estarão vindos de uma mesmíssima caixa; recebendo, então, água de uma mesma origem. Sendo assim, muito da discussão que se dá – puderam deduzir – é imatura.

sábado, 18 de julho de 2015




                          
Banana para a crise
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Final de tarde e um sujeito em crise financeira entra num supermercado para fazer compras. Sua crise é momentânea, porém dupla. Coincidia-lhe uma crise particular em meio a essas crises gerais que se tem de tempos em tempos. Eram dias de pessoas pensativas quando à fila do banco; falantes, quando em lojas.  A criatura em compras foi pesquisando e colocando no carrinho o “bruto” necessário para o correr do mês. Claro, levaria perecíveis e, como tinha crianças em casa, acrescentaria à sua compra suco, iogurte e até dos pequenos frascos de leite fermentado. Alguma coisa, claro, não poderia ir – com sorte, as crianças já não dariam falta das caras latas de cereais as quais eram acostumadas desde o berço. Já, pra si, tinha barreiras de fato. Quando passava pelas cervejas, apenas “namorava” certa importada – recomendada por ser aprimorada.  Demorava em seu rótulo, que entendia sem par, e se abstinha de mirar o preço. Lembrou que aquilo acontecia há quase um ano e decidiu que no Natal – que já estava no horizonte – lhe daria o luxo de ter uma daquelas à mesa. Terminantemente não podia ainda, afinal nem muito bem atendidas estavam suas crianças e, muito menos ela, a “dona patroa”; Em suas compras estava indo o básico; sem um mínimo de “luxo”. E, na correria de um dia que insistia em puxar logo o outro da frente, deixava o carrinho de compras num canto e circulava as prateleiras e depois o procurava de volta e ia completando de gêneros; Era-lhe o costumeiro de fazer. Terminado, foi para a fila do caixa e então, como combinado, suas duas crianças que estavam com uma tia se juntaram a ele. E elas perguntaram logo das guloseimas e ele explicou que estava tudo no carrinho. Uma delas, em idade de entender, foi posta a passar as compras e a outra, a ajudar. Sendo assim, teve tempo de ir cumprir a promessa feita a “dona patroa” de conferir alguns preços de produtos domésticos em novas secções do mercado... Só conferir. Quando voltou estava tudo embalado e deu o cheque para o outro mês; não sem antes “reclamar” do preço. A moça do caixa lhe disse que não era o único. Enfim, levou os pacotes e acomodou-os no porta-malas do calhambeque. As crianças foram para o banco de trás e, alegres, se contorciam em cochichos.



Chegou a sua casa, levou os pacotes pra cozinha e saiu logo dali – que não era com ele. A “dona patroa” começou então a acomodação e, ajudada pelas crianças, viu logo que houvera tempo de o paizão cair na lábia delas, afinal notou que havia exagero nas compras; havia itens incomuns praqueles dias. De cada pacote aberto surgiam os conhecidos gêneros mensais, porém de qualidade mais transcendentes a seus costumes.  Não bastasse, rompiam “supérfluos” que ela própria jamais carregaria o carrinho. Ocorreu-lhe que haveria de o marido ter conseguido um aumento na firma ou, ao menos, estaria vindo, no próximo mês, o esperado “atrasado”. As crianças, por sua vez, mantinham-se jubilosas e ainda aos cochichos. Ele, atraído pelo  zum-zum diferente na cozinha, foi ver.  Olhou as compras e assustou-se; Reconhecia pouco do que colocara no carrinho. Não admira que tenha estranhado, de verdade, o preço – trocara de carrinho lá no supermercado, estava claro; pegara outro por engano... As crianças desfilavam com bigodinhos de iogurte mais refinado e foram ver TV. Olhou a mesa ainda não desocupada de todo e viu a cerveja. Ela mesma; A importada de rótulo incomparável. Abriu-a então e bebeu... Aliás, beberam.

quarta-feira, 8 de julho de 2015




                                                   


Salvemos os Pinheiros.


A cada vez que comermos pinhão ou fizermos com ele algum prato, lembremo-nos que é quase por milagre que ainda por aqui esteja; Que é fenomenal que ainda presente, a nos servir de alimento.  O pinhão pertence a uma família de vegetais das mais antigas da terra; estava lá, no “começo do mundo”. O pinhão alimentou dinossauros e resistiu ao asteroide que exterminou a estes. O pinhão é de uma época em que não existia nem o abacate e nem a abóbora, por exemplo. A árvore que nos dá o pinhão é a Araucária (ou pinheiro-do-Paraná) que é então a única da antiga família já mencionada a nos proporcionar alimento. Um alimento que sobrevive por caminhos difíceis.

A Araucária – o pinheiro específico que nos dá o pinhão – é da família chamada Gimnospermas. Já o abacate, a manga, a abóbora, o caju e outros mais que estão aí, são da família chamada Angiospermas – há ainda outras famílias vegetais de menos membros, mas de nomes igualmente ou mais esquisitos.  Bom, não vou aprofundar em Biologia, até porque era onde eu mais afundava na escola; vou apenas continuar com curiosidades sobre o pinhão.

O pinhão é de uma família diferente e então é diferente, esse é o ponto. Pinhão é semente. Ora, por definição, semente não é pra ser comida e sim pra ser plantada ou jogada fora. O pinhão é semente como as outras sementes, mas o caso é que não tem um envoltório de fruto a protegê-lo; É semente “nua”. Desenvolve-se de maneira seca, protegido apenas por uma casca mais seca ainda. Quando come-se  pinhão come-se então semente; come-se o que deveria ir para o chão germinar. Do abacate, da manga, da abobora a gente come o envoltório que protege a semente e, quanto à semente que então sobra, a plantamos ou lançamos fora. E, uma vez plantadas ou mesmo lançadas fora, poderão nos dar uma frondosa árvore e mais frutas. Já o pinhão é sua própria semente e a gente pega e leva ao fogo, cuidando de não deixar a nenhum de fora da panela. Procuramos a todos cozinhar para aproveitar o trabalho... Vê que pode-se dizer que o pinhão é “meio sem sorte”.

E como se não bastasse o pinhão é meio “enguiçado”; Não nasce em qualquer lugar. Ele “escolhe” onde nascer e, por onde nasce, outras árvores, de outras famílias, não crescem muito por perto – a Araucária se apresenta ou se forma em florestas exclusivas.  A floresta de Araucária é de clima frio e são mais comuns ao sul do Brasil, com alguma coisa no sudeste, sempre em altitudes maiores.

A família de semente “nua” do pinhão é exótica; única. A família de sementes protegidas por frutos é “comum”; numerosa. Figurativamente, pode-se dizer que Gimnospermas são Macintosh e que Angiospermas são Microsoft. Tão diferente é o pinhão e sua família que pode-se dizer que vieram de Marte, nalgum lento vento cósmico (ou será o contrário, são genuinamente terrestre e os Angiospermas é que vieram no lento vento cósmico?).

Mas, enfim, a árvore que dá o pinhão faz sua parte pra tentar manter-se no planeta. Os pinheiros ficam muito altos e quando as pinhas amadurecem e “explodem”, lançam os pinhões num raio de até cinquenta metros, para que ao menos alguns germinem e criem raízes.  Mas a gente vem e pega todo o pinhão que estiver ao alcance e não sobra nada ou pouco sobra pra poder nascer por acaso. E ainda por cima a gente corta os pinheiros pra usar a madeira. O resultado e então que hoje tem-se muito pouco das nativas florestas de Araucária...  Sorte nossa que outros animais “plantam” os pinhões. Tem-se que alguns tipos de aves e também certos roedores carregam alimentos e escondem. Espécies desses bichos vivem na floresta de Araucária e enterram pinhões no chão, em pontos diferentes. E escondem tantos que não dão conta de encontrar a todos para desenterrar e comer... E então a semente brota e assim dá chance de vir à luz do sol mais um gigantesco pinheiro.

Por falar nisso, é nos meses de Maio e Junho que as pinhas estouram e lançam ao longe os pinhões. Torçamos para que aquelas aves e aqueles roedores sejam poupados e se multipliquem sempre pra continuar a plantar mais pinhões; Que Deus continue abençoando; como vem fazendo por tanto tempo.


terça-feira, 23 de junho de 2015










O Polivalente de Lavras e o Xisto Betuminoso

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A maior reserva de Xisto Betuminoso do mundo está nos EUA. Levou tempo, mas desenvolveram tecnologia de extração que o torna viável. Sendo assim os americanos diminuíram sua dependência de importação de petróleo. Pois bem, devido à influência que teve na recente queda do preço mundial do barril de petróleo, o Xisto ocupou muito do noticiário no início do ano. Mas deixo momentaneamente de lado o Xisto e vou falar do Colégio Polivalente (E. E. Dora Matarazzo) de Lavras... Depois junto as duas coisas.


Era 1971 e de minha casa ouvia as máquinas trabalhando no canteiro de obras do que viria a ser o Polivalente – se não me engano trabalhavam também à noite. Morava ali por perto e, quando dia, ia com amiguinhos buscar toquinhos de madeira que ficavam misturados à terra que era arrastada pelos tratores; Era um tempo ainda de fogões a lenha e levávamos pra casa punhado de tal toquinho. Pois sim, três anos depois estava lá, estudando no Polivalente. Vindo de uma simplória escola primária feita em lata, uma vez ali, me senti um rei, acho eu. O Polivalente trazia pilastras fortes como as das pontes. Algumas salas eram incomuns e continham colossais mesas de madeira e maquinários indecifráveis à maioria. A biblioteca tinha infinitos corredores de estantes cheias e era mais ampla que as salas de aula. As salas de aula, por sua vez, eram arejadas, amplas e de tal maneira imponentes que maravilhavam e convidavam a adentra-las afoitamente. Por sinal, adentrar afoitamente as salas de aula era coisa feita pelos alunos cinco vezes ao dia; Porque havia a sala exclusiva de ciências, a de matemática, a de português e assim por diante... O professor é que permanecia na sala, a qual era correspondente à sua matéria. O prédio, com respeitável espaço interno separando as salas, permitia um corre-corre sem atropelos. Ainda quanto às salas de aula, traziam em seu interior – talvez involuntariamente, não sei! – um modo arquitetônico que lembrava figuras geométricas e aquilo, na linha do tempo, talvez tenha entusiasmado a muitos aos estudos.  Indo para fora, o espaço de entorno do prédio era vasto, tendo sempre ao longe a forte cerca de arame, meticulosamente entrelaçada de arbustos. Entre a cerca e o prédio havia mais arbustos, enfeitando e delineando espaços. Por sua vez, os espaços pareciam ser em blocos; Blocos que começavam dentro do prédio e se davam um após outro até escapar ao exterior e, para qualquer lado que voltassem, contornavam livremente o prédio e iam fechar com as quadras de ginásticas e jogos. Como se não bastasse, depois das quadras, mais espaços; estes destinados a trazer utilidades futuras. No Polivalente até mesmo as escadas, tanto as internas quanto as externas, pareciam estar dispostas de modo a trazer júbilo aos alunos, se subido-as ou descendo. E era aquele colégio – convínhamos alguns – maior do que se podia entender, porque “víamos” alas misteriosas, alas inacessíveis e alas aparentemente desprezadas. A mim foi maior do que pude aproveitar, afinal, escapou-me a “Fanfarra” – o que, de pronto, tantos outros nela fizeram bonito e era, a todos, motivo de orgulho. Aquele Polivalente era tão maravilhoso por suas dimensões que não admira se acaso tenha ficado nalgumas memórias também como um parque de diversões perfeito... Embora, poder-se-ia dizer, tudo ali requeria – e impunha – uma saudável disciplina. Criançola, não me ocorreu de questionar o porquê de me entregarem de graça tanta suntuosidade... Mas, vou ao ponto que quero considerar. Vamos unir o Polivalente ao Xisto Betuminoso.


Aprendi ali, não lembro em que série, alguma coisa referente ao Xisto; Lembro-me – como de outras – passagens das aulas de Geografia. Quando recentemente o noticiário tratou do assunto eu sabia do que falavam, afinal... “aprendi na escola”. Então puxei conversas sobre o Xisto com muitos; por uns dias. Pra minha surpresa, muitos de vinte, de trinta anos de idade, não tinham a menor ideia do que se tratava. Claro que um assunto tão prescindível desses pode ser facilmente esquecido; E ainda, minha “pesquisa” não dá mesmo uma amostra nem perto de séria. Por outra, não sei se figuram nos livros didáticos “atuais”, assuntos daquela época; Uso o Xisto porque veio à ordem do dia. Pois bem, a quem quis (e havia-os), falei o que sabia sobre o assunto. Graças àquela escola, não fiquei “boiando” durante um assunto “quente” dos noticiários. Penso que estava certo o colégio que me ensinara até sobre “um tal”  Xisto Betuminoso.


Constato, enfim, que ali a imponência estava também no modo como era aplicado o ensino. Um obrigado àquele colégio Polivalente; àqueles professores e professoras. Se não aprendi mais, a culpa foi só minha.


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Carlos Antonio Pinto (em 19-06-2015 no jornal lavrense  impresso A GAZETA) 

quarta-feira, 17 de junho de 2015



                                    Jesus e o cinema.


Desde criança a gente vê quadros e pinturas que trazem um pretenso rosto de Jesus Cristo. Lembro-me de dois quadros, ambos bastante convincentes quanto à intenção, mas que me chamaram a atenção pelo fato de trazerem rostos bastante diferentes entre si

Com pouco material de pesquisa à época deixei passar, mas com o advento da internet descobri que um rosto era o do ator Robert Powell e o outro rosto era o do ator Jeffrey Hunter. Então a memória me avisou que, quando adolescente ou criança, os vi em filmes relativos à “Vida de Cristo”. Sim, aqueles rostos saíram dos filmes direto para os quadros e pinturas. Recentemente, pesquisando mais, vi o quanto acertaram na escolha os diretores em relação à escolha dos atores citados. Num dos casos aconteceu que, mesmo fora do ‘set de filmagem’, figurantes secundários caíam de joelhos quando passava por eles o ator caracterizado de Jesus Cristo. No outro é quase possível acreditar que o rosto de Jesus era aquele mesmo; que tinha-se até, naquelas filmagens, um “milagre” qualquer acontecendo.     

São antigos os filmes que relacionei e, sobre o mesmo tema, fizeram outros filmes antes e depois. Desde o primeiro até o mais recente figuraram diversos atores que então tiveram seu rosto a representar o de Jesus, sendo ainda que alguns entraram para o rol de representar Jesus em quadros e pinturas. Se amanhã fizerem outros filmes, teremos outros atores e, portanto, mais “rostos de Jesus” acrescentados à lista.  O evento de filmes enquadrados no termo “Vida de Cristo” vem assim caminhando no decorrer do tempo... Mas vou ao ponto em que quero chegar.


A todo evento sujeito a percorrer eras com tema único, quando sua exibição atinge a soma de anos equivalente a quando se torna adulto o homem, diz-se de imediato que “atingiu a maioridade”. A pergunta é: quando a indústria do cinema (que seja a Hollywoodiana) atingirá a maturidade em relação aos filmes sobre a “Vida de Cristo”?

Penso que um filme “maduro” sobre a “Vida de Cristo” não mostraria o rosto do ator ou, que seja, não mostraria o “rosto de Cristo”.

Dentro desse hipotético filme, quando um figurante ou personagem contemplasse a face de Jesus, a câmera seria colocada de maneira a ver o rosto desse figurante ou personagem e esse figurante ou personagem “passaria” ao espectador o que viu. Quando fosse Jesus andar entre a multidão, seus olhos em dado momento é que seriam a câmera (em primeira pessoa); Quem lhe abrisse caminho – e então Lhe olhasse – ficaria encarregado de transmitir (ao espectador), por seu espanto ou admiração, como seria o Seu semblante.   

Claro que, ao gosto do diretor haveriam tomadas em que revelariam o quão cabeludo e o quão alto seria Jesus, por exemplo, mas sempre sem mostrar o rosto do ator (portanto sem mostrar o “rosto” de Jesus) – nem mesmo de perfil.

Evidentemente tal filme, como todos os outros, trataria do assunto de acordo com os quatro Evangelhos canônicos e consideraria também as profecias relativas, mas com a novidade de deixar ao espectador a incumbência de imaginar como seria a face de Jesus.

Certamente que um filme assim não seria no mesmo ritmo dos que já foram feitos e teriam que acrescentar ainda mais novidades em relação à posição das câmeras de filmagem e também disponibilizar outros truques – e, por sinal, tem o cinema condições de inovar mais ainda no quesito abordado.

Ah, sim, claro! Em se fazendo um filme assim, que o público não venha a saber quem figurou com o manto sagrado em meio à multidão; Que não fique sabendo quem, afinal, “carregou” a cruz nas filmagens. Enfim, que o público não venha a saber quem fez o papel de Jesus – que o ator não figure em capas de revista e nem dê entrevistas... Senão teríamos uma volta à estaca zero.

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                                       Carlos Antonio Pinto  (no jornal A Gazeta em 12-06-2015)

quarta-feira, 10 de junho de 2015

A Conquista da Lua (parte II) – o “besouro”. 

(no jornal impresso A Gazeta - de Lavras em 05-06-15)

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A Conquista da Lua (parte II) – o “besouro”.

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“Houston, a Águia pousou”, anunciou Neil Armstrong, junto a Edwin “Buzz” Audrin, assim que constataram que o trem de pouso da nave que pilotavam – o Módulo Lunar – tocou e se acomodou ao chão da Lua. Águia era o “apelido” oficial do Módulo Lunar, que fora projetado para pousar na Lua, decolar dela, e também voar em sua “atmosfera”. Houston, o nome da cidade que abrigava o Centro de Controle de Missões da NASA. Só pra situar melhor, trata-se de uma das missões tripuladas do projeto Apollo; no caso, o ‘Apollo 11’ – a primeira que levou o homem a pisar na superfície da Lua. O terceiro astronauta desta missão, Michael Collins, ficara em órbita da Lua, a bordo do Módulo Duplo de Comando/Serviço; Era julho de 1969. As horas seguintes à frase dita pelo comandante são conhecidas e serão tratadas em outro texto. No momento nos atenhamos ao espantoso engenho voador chamado Módulo Lunar.

Pois bem, no programa americano de conquista da Lua, entendo que um erro de ‘marketing’ foi apelidar (ou batizar) o Modulo Lunar de “Águia” – que de águia, afinal, não tinha nada. Observem por todos os ângulos; Observem como voava tal nave. Assemelhava-se a um besouro e não a uma águia. Sei que, em sua concepção completa (com os estágios de descida e de subida unidos), devido à disposição das pernas do trem de pouso, aceitava-se que se “assemelhava” a uma aranha. Mas mesmo com aquelas quatro pernas abertas, quando voa em descida ao encontro do chão da Lua é um besouro que claramente se vê. Tem-se ali, no “estágio de descida”, tudo de um besouro em voo – o “gingado”, a “ausência” de asas, a imprecisão lateral, a impressão que não vai frear a tempo. 

Quando no “estágio de subida”, é menor a parafernália do Módulo Lunar, isso porque deixa na Lua todo o aparato que fora necessário ao “estágio de descida”, porém, a semelhança a um besouro persiste – quando deixa a Lua, o que se autoprojeta para as alturas é nitidamente um besouro. Lembremo-nos que, quanto ao inseto besouro, dá-nos a impressão que faz voo de pouso com as pernas abertas e voo de subida com elas recolhidas e, em qualquer dos casos, sempre se nos apresenta destituído de asas.

É fato divulgado que o Módulo Lunar do Apollo 11, mesmo programado pra cumprir uma trajetória pré-determinada, ao iniciar a operação final de pouso na Lua, tomou rumo próprio e afastou-se uns seis quilômetros do “ponto X” marcado para a alunissagem (acho desnecessário o termo alunissagem – aterrissagem na Lua não confundiria). Este desnorteamento inesperado fez com que, emergencialmente, os dois astronautas lhe tomassem o comando. Veja-se que o inseto besouro assim se comporta: vem do alto num voo até gracioso, mas nada indica que vai exatamente pousar. Como ninguém lhe toma os comandos, vai chocar-se contra um poste, parede ou lâmpada – e, depois disso, só conseguirá voar novamente se não forem sérias as avarias que certamente sofrerá em seu exoesqueleto. Pensando bem, talvez não tenham batizado o Módulo Lunar de “besouro” por precaução; pra não trazer mau agouro.

E, entende-se. Não teria mesmo muito glamour, após o primeiro veículo tripulado de construção humana pousar em outro mundo, seu comandante avisar a base na terra: “Houston, o besouro pousou” – enquanto todos ouviam a tudo. E, claro, tinha que ser águia, afinal a ave é símbolo americano e por isso a escolheram; Pra tudo se “fechar”.

Mas, partamos para algumas vantagens. Se “besouro”, as crianças iriam se interessar mais pelas miniaturas do Módulo Lunar, tornando-o mais “universal” – aquela simulação de voo que Tom Hanks fez com o brinquedo para o filho no filme ‘Apollo-13’ ficaria mais “realista” se manuseasse um “besouro” e não uma “águia”. Também, “besouro”, àquelas alturas, dava nome a uma já famosa banda de música, os Beatles (de nome arranjado a partir de “beetle”); Antes, por sinal, eram eles os ‘Besouros Prateados’.

O Módulo Lunar, uma nave que, evidentemente, só tinha a ver com a Lua, fora antes experimentada aqui na terra. Se na Lua, sem atmosfera e de força gravitacional bem menor que a terrestre, ele apresentou um voo de besouro, ainda que satisfatório e seguro, nos testes em nossa atmosfera ficava – não há outro termo a usar – completamente “doidão” no ar. Nesses testes, documentado está, muito voo terminou com a ejeção do piloto, enquanto o ‘besouro lunar’ se esborrachava no chão, ou num poste, ou numa parede. Isso dá uma ideia de quão complexo foi os preparativos pra se poder pousar na Lua (e escapar dela) com segurança.

Mas o incrível Módulo Lunar ainda não é só isso de complexidade. Voltaremos a ele.

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                  Carlos Antonio Pinto 


                                                            

sexta-feira, 5 de junho de 2015




Torcedor morno

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É fantástico o futebol. E também indispensável; Afinal faz dinheiro e dá fluxo a ele em nosso insubstituível mundo capitalista; assim o entendo. Se, no entanto, como competição ou simples bate-papo, o assunto vira pra ele, logo “recolho-me à minha insignificância” em relação a; Desde muito. Às vezes “só observo”, pra sacar algum lance divertido – que, afinal, aparece sempre. Ao observar também aprendo; Como ocorreu.

Foi durante uma “copa do mundo”, faz tempo e não me lembro a qual, havia uma febre de se torcer contra o time argentino, e estava ele tido como “favorito”. No meu trabalho, entre colegas, nas rodinhas sobre o assunto, debatiam e queriam porque queriam que a Argentina “voltasse logo pra casa”; de preferência nas oitavas de final, lembro. Alguns chegavam a fazer contorcionismo matemático, a relembrar jogos passados e concluíam: a Argentina não passaria das “quartas” e por aí ia. Mas aquele time foi indo em frente e, quase já ao final do campeonato, teria que enfrentar um adversário também considerado favorito. De tanto ouvir falar resolvi que iria assistir ao referido jogo.


Deu hora e fui pra frente do televisor. Torcia contra a Argentina e então torcia para que o outro time fosse melhor em campo. Teria que ser superior a ponto de colocar a Argentina “debaixo do chinelo” – era o que queria ver. Queria que os “hermanos” saíssem de campo de cabeça baixa, o que significaria, ademais, que não eram assim os “reis da cocada preta”. Com esse pensamento me armei.


De fato eram dois times bons e a coisa andou quente; Não havia como não entender que era um bom jogo de futebol. No entanto a cada minuto que passava o time argentino ia criando mais condições de chegar ao gol.  Pois bem, e ele marcou primeiro... Mas logo a seguir levou um gol. Com o jogo empatado no início do segundo tempo, toda a etapa foi tensa e, ali beirando ao final – tanto que já falavam em prorrogação do jogo – o outro time, num lance feio, enfiou um segundo gol no time argentino... Não haveria tempo para um empate; Nenhum time conseguiria empatar. A Argentina estava sendo mandada de volta pra casa. O lance foi demorado de entender, mas o juiz apitou gol e gol apitado (tal qual quando se leva uma multa de trânsito) era gol e pronto. Enquanto o locutor urrava de felicidade a câmera flagrava os jogadores comemorando e sua torcida sorridente nas arquibancadas. Quanto aos argentinos, nos lances em que se os mostrava, via-se que estavam não apenas perplexos, mas a reclamar do lance do gol... e assim também se deu com sua torcida nas arquibancadas.  O locutor logo explicou que não aceitavam o gol; que, alegavam, teria sido “roubado”. Mas deu-se que o resultado era aquele mesmo e veio o apito final. O time argentino, visivelmente, merecia ter ganhado o jogo, no entanto, perdera; Perdera para um time que então ganhara... “roubado” – ao menos isso é o que passara a ser “admitido” por metade da plateia.

A partir de então, não via a hora de ouvir os comentários em meio à turma no trabalho. Estaríamos todos felizes, claro, mas o jogo, como espetáculo, não tinha sido exatamente um primor devido ao resultado “duvidoso”.


E, nas conversas, pra minha surpresa, o tom foi morno; A Argentina era carta fora do baralho e pronto; O importante já era tocar a bola pra frente, tanto que às vezes se fazia blocos de silêncio entre as conversações. Mas não é que, de um dos debatedores, a quebrar um desses blocos de silêncio, veio uma grande sacada... com as seguintes palavras: “Gente, ver a Argentina perder já é bom, mas vê-la perder por gol roubado faz a cerveja descer mais macia; É felicidade em dobro, gente!”. Fosse hoje talvez dissesse mais ou menos isso: ‘Gente – ver a Argentina perder jogando mal vale uma cerveja; vê-la jogando bem e ainda assim perder vale duas cervejas, mas vê-la jogar bem e perder por gol roubado... não tem preço’.


Em sendo assim descobri que há mais de uma maneira de torcer contra, e não unicamente aquela maneira monótona a qual eu conhecia.


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                      Carlos Antonio Pinto (em 29-05-2015 no jornal impresso A Gazeta  - Lavras-MG)


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Obs: no jornal impresso 'A Gazeta' taquei duas vírgulas a mais no texto, inclusive separando o sujeito do verbo... No texto do blog fiz a correção.  

quinta-feira, 28 de maio de 2015

A Conquista da Lua (parte I)













                                                   A Conquista da Lua (parte I)



Há quem não acredite que o homem foi à Lua e ainda acrescente alegações arrojadas a tal postura. Vão desde o porquê de aquela bandeira ter tremulado num ambiente sem ar, passam pela discussão se tinha, afinal, o Módulo Lunar, “aerodinâmica” pra voar, e culminam em questionamentos quanto ao céu lunar se apresentar sem estrelas. No entanto, a cada alegação contra, tem-se, claro, explicações oficiais – que, por sua vez, suficientes por verdadeiras. Acredito que o homem foi à Lua e não me custa tentar idear algum reforço para acrescentar aos argumentos favoráveis... Antes, algo sobre o Projeto Apollo – esse o nome oficial do programa americano de conquista da Lua.

Foi um projeto da NASA e teve início em 1961. Constituiu-se de missões não tripuladas e tripuladas, num total de 17, sendo que seis resultaram em pouso tripulado na Lua e uma foi abortada – senão teriam sido sete. A primeira missão tripulada, o Apollo 11, se deu em Julho de 1969; As posteriores se estenderam até 1972.  A nave também se chamava Apollo e tinha o formato de uma caneta. O corpo todo dessa “caneta” eram foguetes e tanques de combustível e unicamente a ponta (tal qual a que se destaca do corpo de uma esferográfica) era a nave em si, na qual, num “compartimento”, iam aboletados três astronautas – note-se que fomos acostumados a dizer que “foguetes” iam pra Lua e não que naves iam pra Lua, tal a predominância de foguetes na Apollo. Na arrancada rumo ao espaço, a cada estágio de queima concluído (eram três os estágios), iam sendo descartados os tanques de combustível já esvaziados, junto aos foguetes já fumados. Durante a arrancada até escapar da força de gravidade da terra – diria um dos astronautas mais tarde – a coisa trepidava e estalava tanto que se acaso o conjunto de foguetes explodisse de uma só vez (e tudo se danasse), não perceberiam a princípio. A nave, então, livre dos foguetes principais e também da força de gravidade da terra, seguia, com propulsão auxiliar, espaço sideral afora em direção à Lua... Ia, levando os três corajosos sujeitos. A essas alturas a nave era conjunto de três “módulos” conectados: o Módulo (duplo) de Comando/Serviço e o Módulo Lunar. Os astronautas tinham seus assentos a bordo do Módulo de Comando e era tão pequeno e desajeitado o seu habitáculo ali que, se uma vez todo mundo acomodado, um deles se esquecesse de colocar o cinto de segurança, não haveria mais como o encontrar – consideradas as marcantes diferenças, uma situação que bem conhecemos. Não bastasse o desconforto de sua ordinária cabine, a parte final da viagem era feita com o desajeitado Módulo Lunar conectado à frente dela, atrapalhando-lhes a visão – que seguramente magnífica, apesar de certamente sinistra. Ainda, toda aquela gaiola pressurizada, se é que possuía um computador como o conhecemos hoje, era mais fraco que aquele ‘intel 286’ que jogávamos Paciência em meados da década de 80. O que chegava à Lua, enfim, era tipo um Fusca... De tal modo que, descontado um rádio que funcionava muito bem, filtrando com eficiência os estalos de ignição, o que se tinha à mão eram bancos não reclináveis, marcadores de combustível por cabo de aço, cintos de segurança complicados e limitações na visibilidade – apesar do para-brisas a apenas dois palmos da testa. Corajosos aqueles sujeitos! Quando já em órbita da Lua, um dos astronautas ficava a sós, inerte a bordo do Módulo de Comando que, por sua vez, permanecia inerte no espaço sideral; Os outros dois “respiravam fundo” e se transferiam para o obscuro Módulo Lunar, enfurnando de ponta cabeça nele, para desconecta-lo e descerem – voando tal qual um besouro – ao encontro do chão cinzento da Lua... Mas vamos então ao meu argumento pró – que é forte porque “matemático”.

Fosse a conquista da Lua uma fraude, teriam dito que pousaram nela, no máximo, por duas vezes e não por seis vezes. É isso! A “criação” de dois pousos tripulados já faria história – a mesma história que seis; Não precisariam arriscar em mais ludibriar porque a corrida (era uma corrida!) já estaria no papo com duas missões tripuladas. Fosse fraude, corriam o risco – sabiam – de mais tarde ser revelado, e então a afirmação falsa de dois pousos tripulados seria menos complicada de justificar do que a afirmação falsa de seis (ou sete) pousos tripulados.

Considerem ainda, “mal comparando”: a uma criatura que ver revelado que cometera traição e que constatado fora que “pulara a cerca” por duas vezes, lhe será menos complicado explicar do que acaso veja que constatado fora que a cerca pulara por seis (ou sete) vezes.  Simples assim! 

Foram, sim, à Lua; ou melhor, fomos.



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Esta é minha segunda crônica no jornal lavrense A Gazeta. Voltarei ao tema em outras crônicas no mesmo espaço, mais à frente. 
                                                            Carlos Antonio Pinto