terça-feira, 23 de junho de 2015










O Polivalente de Lavras e o Xisto Betuminoso

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A maior reserva de Xisto Betuminoso do mundo está nos EUA. Levou tempo, mas desenvolveram tecnologia de extração que o torna viável. Sendo assim os americanos diminuíram sua dependência de importação de petróleo. Pois bem, devido à influência que teve na recente queda do preço mundial do barril de petróleo, o Xisto ocupou muito do noticiário no início do ano. Mas deixo momentaneamente de lado o Xisto e vou falar do Colégio Polivalente (E. E. Dora Matarazzo) de Lavras... Depois junto as duas coisas.


Era 1971 e de minha casa ouvia as máquinas trabalhando no canteiro de obras do que viria a ser o Polivalente – se não me engano trabalhavam também à noite. Morava ali por perto e, quando dia, ia com amiguinhos buscar toquinhos de madeira que ficavam misturados à terra que era arrastada pelos tratores; Era um tempo ainda de fogões a lenha e levávamos pra casa punhado de tal toquinho. Pois sim, três anos depois estava lá, estudando no Polivalente. Vindo de uma simplória escola primária feita em lata, uma vez ali, me senti um rei, acho eu. O Polivalente trazia pilastras fortes como as das pontes. Algumas salas eram incomuns e continham colossais mesas de madeira e maquinários indecifráveis à maioria. A biblioteca tinha infinitos corredores de estantes cheias e era mais ampla que as salas de aula. As salas de aula, por sua vez, eram arejadas, amplas e de tal maneira imponentes que maravilhavam e convidavam a adentra-las afoitamente. Por sinal, adentrar afoitamente as salas de aula era coisa feita pelos alunos cinco vezes ao dia; Porque havia a sala exclusiva de ciências, a de matemática, a de português e assim por diante... O professor é que permanecia na sala, a qual era correspondente à sua matéria. O prédio, com respeitável espaço interno separando as salas, permitia um corre-corre sem atropelos. Ainda quanto às salas de aula, traziam em seu interior – talvez involuntariamente, não sei! – um modo arquitetônico que lembrava figuras geométricas e aquilo, na linha do tempo, talvez tenha entusiasmado a muitos aos estudos.  Indo para fora, o espaço de entorno do prédio era vasto, tendo sempre ao longe a forte cerca de arame, meticulosamente entrelaçada de arbustos. Entre a cerca e o prédio havia mais arbustos, enfeitando e delineando espaços. Por sua vez, os espaços pareciam ser em blocos; Blocos que começavam dentro do prédio e se davam um após outro até escapar ao exterior e, para qualquer lado que voltassem, contornavam livremente o prédio e iam fechar com as quadras de ginásticas e jogos. Como se não bastasse, depois das quadras, mais espaços; estes destinados a trazer utilidades futuras. No Polivalente até mesmo as escadas, tanto as internas quanto as externas, pareciam estar dispostas de modo a trazer júbilo aos alunos, se subido-as ou descendo. E era aquele colégio – convínhamos alguns – maior do que se podia entender, porque “víamos” alas misteriosas, alas inacessíveis e alas aparentemente desprezadas. A mim foi maior do que pude aproveitar, afinal, escapou-me a “Fanfarra” – o que, de pronto, tantos outros nela fizeram bonito e era, a todos, motivo de orgulho. Aquele Polivalente era tão maravilhoso por suas dimensões que não admira se acaso tenha ficado nalgumas memórias também como um parque de diversões perfeito... Embora, poder-se-ia dizer, tudo ali requeria – e impunha – uma saudável disciplina. Criançola, não me ocorreu de questionar o porquê de me entregarem de graça tanta suntuosidade... Mas, vou ao ponto que quero considerar. Vamos unir o Polivalente ao Xisto Betuminoso.


Aprendi ali, não lembro em que série, alguma coisa referente ao Xisto; Lembro-me – como de outras – passagens das aulas de Geografia. Quando recentemente o noticiário tratou do assunto eu sabia do que falavam, afinal... “aprendi na escola”. Então puxei conversas sobre o Xisto com muitos; por uns dias. Pra minha surpresa, muitos de vinte, de trinta anos de idade, não tinham a menor ideia do que se tratava. Claro que um assunto tão prescindível desses pode ser facilmente esquecido; E ainda, minha “pesquisa” não dá mesmo uma amostra nem perto de séria. Por outra, não sei se figuram nos livros didáticos “atuais”, assuntos daquela época; Uso o Xisto porque veio à ordem do dia. Pois bem, a quem quis (e havia-os), falei o que sabia sobre o assunto. Graças àquela escola, não fiquei “boiando” durante um assunto “quente” dos noticiários. Penso que estava certo o colégio que me ensinara até sobre “um tal”  Xisto Betuminoso.


Constato, enfim, que ali a imponência estava também no modo como era aplicado o ensino. Um obrigado àquele colégio Polivalente; àqueles professores e professoras. Se não aprendi mais, a culpa foi só minha.


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Carlos Antonio Pinto (em 19-06-2015 no jornal lavrense  impresso A GAZETA) 

quarta-feira, 17 de junho de 2015



                                    Jesus e o cinema.


Desde criança a gente vê quadros e pinturas que trazem um pretenso rosto de Jesus Cristo. Lembro-me de dois quadros, ambos bastante convincentes quanto à intenção, mas que me chamaram a atenção pelo fato de trazerem rostos bastante diferentes entre si

Com pouco material de pesquisa à época deixei passar, mas com o advento da internet descobri que um rosto era o do ator Robert Powell e o outro rosto era o do ator Jeffrey Hunter. Então a memória me avisou que, quando adolescente ou criança, os vi em filmes relativos à “Vida de Cristo”. Sim, aqueles rostos saíram dos filmes direto para os quadros e pinturas. Recentemente, pesquisando mais, vi o quanto acertaram na escolha os diretores em relação à escolha dos atores citados. Num dos casos aconteceu que, mesmo fora do ‘set de filmagem’, figurantes secundários caíam de joelhos quando passava por eles o ator caracterizado de Jesus Cristo. No outro é quase possível acreditar que o rosto de Jesus era aquele mesmo; que tinha-se até, naquelas filmagens, um “milagre” qualquer acontecendo.     

São antigos os filmes que relacionei e, sobre o mesmo tema, fizeram outros filmes antes e depois. Desde o primeiro até o mais recente figuraram diversos atores que então tiveram seu rosto a representar o de Jesus, sendo ainda que alguns entraram para o rol de representar Jesus em quadros e pinturas. Se amanhã fizerem outros filmes, teremos outros atores e, portanto, mais “rostos de Jesus” acrescentados à lista.  O evento de filmes enquadrados no termo “Vida de Cristo” vem assim caminhando no decorrer do tempo... Mas vou ao ponto em que quero chegar.


A todo evento sujeito a percorrer eras com tema único, quando sua exibição atinge a soma de anos equivalente a quando se torna adulto o homem, diz-se de imediato que “atingiu a maioridade”. A pergunta é: quando a indústria do cinema (que seja a Hollywoodiana) atingirá a maturidade em relação aos filmes sobre a “Vida de Cristo”?

Penso que um filme “maduro” sobre a “Vida de Cristo” não mostraria o rosto do ator ou, que seja, não mostraria o “rosto de Cristo”.

Dentro desse hipotético filme, quando um figurante ou personagem contemplasse a face de Jesus, a câmera seria colocada de maneira a ver o rosto desse figurante ou personagem e esse figurante ou personagem “passaria” ao espectador o que viu. Quando fosse Jesus andar entre a multidão, seus olhos em dado momento é que seriam a câmera (em primeira pessoa); Quem lhe abrisse caminho – e então Lhe olhasse – ficaria encarregado de transmitir (ao espectador), por seu espanto ou admiração, como seria o Seu semblante.   

Claro que, ao gosto do diretor haveriam tomadas em que revelariam o quão cabeludo e o quão alto seria Jesus, por exemplo, mas sempre sem mostrar o rosto do ator (portanto sem mostrar o “rosto” de Jesus) – nem mesmo de perfil.

Evidentemente tal filme, como todos os outros, trataria do assunto de acordo com os quatro Evangelhos canônicos e consideraria também as profecias relativas, mas com a novidade de deixar ao espectador a incumbência de imaginar como seria a face de Jesus.

Certamente que um filme assim não seria no mesmo ritmo dos que já foram feitos e teriam que acrescentar ainda mais novidades em relação à posição das câmeras de filmagem e também disponibilizar outros truques – e, por sinal, tem o cinema condições de inovar mais ainda no quesito abordado.

Ah, sim, claro! Em se fazendo um filme assim, que o público não venha a saber quem figurou com o manto sagrado em meio à multidão; Que não fique sabendo quem, afinal, “carregou” a cruz nas filmagens. Enfim, que o público não venha a saber quem fez o papel de Jesus – que o ator não figure em capas de revista e nem dê entrevistas... Senão teríamos uma volta à estaca zero.

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                                       Carlos Antonio Pinto  (no jornal A Gazeta em 12-06-2015)

quarta-feira, 10 de junho de 2015

A Conquista da Lua (parte II) – o “besouro”. 

(no jornal impresso A Gazeta - de Lavras em 05-06-15)

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A Conquista da Lua (parte II) – o “besouro”.

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“Houston, a Águia pousou”, anunciou Neil Armstrong, junto a Edwin “Buzz” Audrin, assim que constataram que o trem de pouso da nave que pilotavam – o Módulo Lunar – tocou e se acomodou ao chão da Lua. Águia era o “apelido” oficial do Módulo Lunar, que fora projetado para pousar na Lua, decolar dela, e também voar em sua “atmosfera”. Houston, o nome da cidade que abrigava o Centro de Controle de Missões da NASA. Só pra situar melhor, trata-se de uma das missões tripuladas do projeto Apollo; no caso, o ‘Apollo 11’ – a primeira que levou o homem a pisar na superfície da Lua. O terceiro astronauta desta missão, Michael Collins, ficara em órbita da Lua, a bordo do Módulo Duplo de Comando/Serviço; Era julho de 1969. As horas seguintes à frase dita pelo comandante são conhecidas e serão tratadas em outro texto. No momento nos atenhamos ao espantoso engenho voador chamado Módulo Lunar.

Pois bem, no programa americano de conquista da Lua, entendo que um erro de ‘marketing’ foi apelidar (ou batizar) o Modulo Lunar de “Águia” – que de águia, afinal, não tinha nada. Observem por todos os ângulos; Observem como voava tal nave. Assemelhava-se a um besouro e não a uma águia. Sei que, em sua concepção completa (com os estágios de descida e de subida unidos), devido à disposição das pernas do trem de pouso, aceitava-se que se “assemelhava” a uma aranha. Mas mesmo com aquelas quatro pernas abertas, quando voa em descida ao encontro do chão da Lua é um besouro que claramente se vê. Tem-se ali, no “estágio de descida”, tudo de um besouro em voo – o “gingado”, a “ausência” de asas, a imprecisão lateral, a impressão que não vai frear a tempo. 

Quando no “estágio de subida”, é menor a parafernália do Módulo Lunar, isso porque deixa na Lua todo o aparato que fora necessário ao “estágio de descida”, porém, a semelhança a um besouro persiste – quando deixa a Lua, o que se autoprojeta para as alturas é nitidamente um besouro. Lembremo-nos que, quanto ao inseto besouro, dá-nos a impressão que faz voo de pouso com as pernas abertas e voo de subida com elas recolhidas e, em qualquer dos casos, sempre se nos apresenta destituído de asas.

É fato divulgado que o Módulo Lunar do Apollo 11, mesmo programado pra cumprir uma trajetória pré-determinada, ao iniciar a operação final de pouso na Lua, tomou rumo próprio e afastou-se uns seis quilômetros do “ponto X” marcado para a alunissagem (acho desnecessário o termo alunissagem – aterrissagem na Lua não confundiria). Este desnorteamento inesperado fez com que, emergencialmente, os dois astronautas lhe tomassem o comando. Veja-se que o inseto besouro assim se comporta: vem do alto num voo até gracioso, mas nada indica que vai exatamente pousar. Como ninguém lhe toma os comandos, vai chocar-se contra um poste, parede ou lâmpada – e, depois disso, só conseguirá voar novamente se não forem sérias as avarias que certamente sofrerá em seu exoesqueleto. Pensando bem, talvez não tenham batizado o Módulo Lunar de “besouro” por precaução; pra não trazer mau agouro.

E, entende-se. Não teria mesmo muito glamour, após o primeiro veículo tripulado de construção humana pousar em outro mundo, seu comandante avisar a base na terra: “Houston, o besouro pousou” – enquanto todos ouviam a tudo. E, claro, tinha que ser águia, afinal a ave é símbolo americano e por isso a escolheram; Pra tudo se “fechar”.

Mas, partamos para algumas vantagens. Se “besouro”, as crianças iriam se interessar mais pelas miniaturas do Módulo Lunar, tornando-o mais “universal” – aquela simulação de voo que Tom Hanks fez com o brinquedo para o filho no filme ‘Apollo-13’ ficaria mais “realista” se manuseasse um “besouro” e não uma “águia”. Também, “besouro”, àquelas alturas, dava nome a uma já famosa banda de música, os Beatles (de nome arranjado a partir de “beetle”); Antes, por sinal, eram eles os ‘Besouros Prateados’.

O Módulo Lunar, uma nave que, evidentemente, só tinha a ver com a Lua, fora antes experimentada aqui na terra. Se na Lua, sem atmosfera e de força gravitacional bem menor que a terrestre, ele apresentou um voo de besouro, ainda que satisfatório e seguro, nos testes em nossa atmosfera ficava – não há outro termo a usar – completamente “doidão” no ar. Nesses testes, documentado está, muito voo terminou com a ejeção do piloto, enquanto o ‘besouro lunar’ se esborrachava no chão, ou num poste, ou numa parede. Isso dá uma ideia de quão complexo foi os preparativos pra se poder pousar na Lua (e escapar dela) com segurança.

Mas o incrível Módulo Lunar ainda não é só isso de complexidade. Voltaremos a ele.

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                  Carlos Antonio Pinto 


                                                            

sexta-feira, 5 de junho de 2015




Torcedor morno

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É fantástico o futebol. E também indispensável; Afinal faz dinheiro e dá fluxo a ele em nosso insubstituível mundo capitalista; assim o entendo. Se, no entanto, como competição ou simples bate-papo, o assunto vira pra ele, logo “recolho-me à minha insignificância” em relação a; Desde muito. Às vezes “só observo”, pra sacar algum lance divertido – que, afinal, aparece sempre. Ao observar também aprendo; Como ocorreu.

Foi durante uma “copa do mundo”, faz tempo e não me lembro a qual, havia uma febre de se torcer contra o time argentino, e estava ele tido como “favorito”. No meu trabalho, entre colegas, nas rodinhas sobre o assunto, debatiam e queriam porque queriam que a Argentina “voltasse logo pra casa”; de preferência nas oitavas de final, lembro. Alguns chegavam a fazer contorcionismo matemático, a relembrar jogos passados e concluíam: a Argentina não passaria das “quartas” e por aí ia. Mas aquele time foi indo em frente e, quase já ao final do campeonato, teria que enfrentar um adversário também considerado favorito. De tanto ouvir falar resolvi que iria assistir ao referido jogo.


Deu hora e fui pra frente do televisor. Torcia contra a Argentina e então torcia para que o outro time fosse melhor em campo. Teria que ser superior a ponto de colocar a Argentina “debaixo do chinelo” – era o que queria ver. Queria que os “hermanos” saíssem de campo de cabeça baixa, o que significaria, ademais, que não eram assim os “reis da cocada preta”. Com esse pensamento me armei.


De fato eram dois times bons e a coisa andou quente; Não havia como não entender que era um bom jogo de futebol. No entanto a cada minuto que passava o time argentino ia criando mais condições de chegar ao gol.  Pois bem, e ele marcou primeiro... Mas logo a seguir levou um gol. Com o jogo empatado no início do segundo tempo, toda a etapa foi tensa e, ali beirando ao final – tanto que já falavam em prorrogação do jogo – o outro time, num lance feio, enfiou um segundo gol no time argentino... Não haveria tempo para um empate; Nenhum time conseguiria empatar. A Argentina estava sendo mandada de volta pra casa. O lance foi demorado de entender, mas o juiz apitou gol e gol apitado (tal qual quando se leva uma multa de trânsito) era gol e pronto. Enquanto o locutor urrava de felicidade a câmera flagrava os jogadores comemorando e sua torcida sorridente nas arquibancadas. Quanto aos argentinos, nos lances em que se os mostrava, via-se que estavam não apenas perplexos, mas a reclamar do lance do gol... e assim também se deu com sua torcida nas arquibancadas.  O locutor logo explicou que não aceitavam o gol; que, alegavam, teria sido “roubado”. Mas deu-se que o resultado era aquele mesmo e veio o apito final. O time argentino, visivelmente, merecia ter ganhado o jogo, no entanto, perdera; Perdera para um time que então ganhara... “roubado” – ao menos isso é o que passara a ser “admitido” por metade da plateia.

A partir de então, não via a hora de ouvir os comentários em meio à turma no trabalho. Estaríamos todos felizes, claro, mas o jogo, como espetáculo, não tinha sido exatamente um primor devido ao resultado “duvidoso”.


E, nas conversas, pra minha surpresa, o tom foi morno; A Argentina era carta fora do baralho e pronto; O importante já era tocar a bola pra frente, tanto que às vezes se fazia blocos de silêncio entre as conversações. Mas não é que, de um dos debatedores, a quebrar um desses blocos de silêncio, veio uma grande sacada... com as seguintes palavras: “Gente, ver a Argentina perder já é bom, mas vê-la perder por gol roubado faz a cerveja descer mais macia; É felicidade em dobro, gente!”. Fosse hoje talvez dissesse mais ou menos isso: ‘Gente – ver a Argentina perder jogando mal vale uma cerveja; vê-la jogando bem e ainda assim perder vale duas cervejas, mas vê-la jogar bem e perder por gol roubado... não tem preço’.


Em sendo assim descobri que há mais de uma maneira de torcer contra, e não unicamente aquela maneira monótona a qual eu conhecia.


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                      Carlos Antonio Pinto (em 29-05-2015 no jornal impresso A Gazeta  - Lavras-MG)


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Obs: no jornal impresso 'A Gazeta' taquei duas vírgulas a mais no texto, inclusive separando o sujeito do verbo... No texto do blog fiz a correção.