terça-feira, 20 de outubro de 2015

Crônica publicada em primeira mão no jornal impresso A Gazeta (de Lavras-MG e região) em 16/10/2015 



                                   Dia do(a) Motorista


---





Caso resolva sair por aí a perguntar as pessoas – especialmente àquelas que já possuam carteira de motorista – o que significa ou a que se refere a sequência de palavras Admissão, Compressão, Explosão e Descarga, a resposta que majoritariamente obterá (faça o teste!) será a seguinte: “Deixa eu ver; me é familiar... Ah, já sei, tem no livrinho da autoescola!”. Após essa resposta a conversa tenderá a parar por aí, porém haverá casos em que ocorrerá reviradas em gavetas em busca do tal livrinho da autoescola. Também, em cota ínfima, poderá acontecer o seguinte: a pessoa “lembrará” o que é Admissão e, procurando uma correlação mais segura para a palavra, a relacionará ao ato de entrar para algum emprego ou entidade – “ser admitida” e tal. Então, caso você decida ir em frente, quanto a segunda palavra – a Compressão – poderá ouvir o seguinte: “é tipo aquela borrachinha que a moça amarra no braço pra fazer o exame de sangue; ela é colocada com pressão”. Então você pede outro exemplo e ouve que “em liquidações de roupas, as que estão fora de estação, ficam com ‘preção’”. Você insiste e poderá ouvir ainda: “tem também o caso da pessoa ser boa, compreensiva”. A essas alturas você quer saber aonde vai dar a conversa e pede o significado da terceira palavra. Fica sabendo então que existe uma sobremesa de nome “explosão de chocolate”... Você faz um ar de repugnância a açúcar e ouve que há, também, a muito falada... “explosão de caixa eletrônico”. Sobra então a quarta palavra – a Descarga – e te esclarecem de imediato que “essa e fácil”, afinal, “todo mundo possui em casa”... Pois bem, se você não desiste e continua a pesquisa, poderá ocorrer, numa chance em mil, um segundo caso. Você se depararia com o seguinte: a pessoa diz que entende, sim, a sequência de palavras da qual fala e que, por sinal, são elas um resumo de sua vida, pois em situações estressantes, a princípio admite, depois compreende, mas logo explode e tem de procurar um escape qualquer... Se você pesquisa mais, poderá ainda, nesse caso numa chance em um milhão, pintar um terceiro e curioso caso. Nesse, será entendido que o que falas tem a ver mesmo é com o “Quarteto Fantástico” (aquele filme)... Entenderás que há ali um explosivo Coisa, um compreensivo Homem Borracha, uma moça que está sempre escapando, um cara que pega fogo e tal... E haverá também uma minoria que saberá, afinal, do que trata as tais quatro palavras em sequência – e, entre eles, estarão os doutores na questão que, deixando de lado o parecer do livrinho da autoescola, poderão trazer uma luz, explicando: Nos motores de combustão interna, seja obtida a explosão por pressão de compressão ou vinda de centelha de agente intermitentemente em ignição, é considerado o tempo de trabalho, unicamente a explosão, sendo que os outros três tempos são “arrastados” a fazer a sua parte – Admissão, Compressão e Escape (ou Descarga) vão “no embalo da coisa” e obedecem confecção mesma do engenho motor e, de acordo com o volume de combustível a ser admitido na câmara de explosão se determinará a dimensão tanto das válvulas de Admissão quanto das válvulas de Descarga, lembrando que, no mais, nem Nicolaus Otto (o inventor do motor) se preocupou com isso a princípio (...)... Basta!

De uma coisa dessas só pode mesmo sair é gás carbônico e, com certeza, dirige-se muito bem sem saber o que tal sequência de palavras tem a ver com o automóvel. Mas, em auxilio a quem ao menos se recordar que o enrosco está no livrinho da autoescola, fica a dica de uma resposta boa de lembrar (quase em verso, pra facilitar).

Admissão, Compressão, Explosão e Descarga é a principal coisa que faz o carro andar/ E quanto mais você “pisa” mais acontece/ E em muito acontecendo, bebe gasolina pra danar.

---

sábado, 10 de outubro de 2015

                                      Um pouco de Dízimo...
-

Não se visa aqui discutir o dízimo nas religiões. Temos a respeito do dízimo nos Evangelhos, no entanto. Na Bíblia tem-se muito quase que por “códigos” – daí as várias interpretações – e talvez dízimo requeira, também, outras maneiras de ser entendido.
(...) Como começar? Seria ‘um pouco dE dízimo’ ou ‘um pouco dO dízimo’? Vamos de “dE”.
Um pouco de dízimo talvez esteja na paciência em ajuntar e acondicionar latinhas e passa-las àquele moço que lhes dá tanto valor porque vendendo-as consegue completar o seu mês.
Um pouco de dízimo talvez esteja em deixar que alguém capine aquele seu lote; Em mesmo pagar o preço que esse alguém venha a pedir para fazer o serviço.
Um pouco de dízimo talvez esteja em passar a outro a pintura do muro ou da casa.
Um pouco de dízimo talvez esteja em “mandar” por cabo naquela velha panela, ou por asa na vasilha há tanto encostada.
Um pouco de dízimo talvez esteja até – sei lá! – naquele um real que lhe foi requisitado pra tomar uma cachaça.
Um pouco de dízimo talvez esteja em doar algo que já não lhe sirva.
Um pouco de dízimo talvez esteja em não recorrer tanto a uma multa, quando tens certeza que a deves.
Um pouco de dízimo talvez esteja no ato de um chefe, numa empresa, “autorizar” um pequeno aumento a algum empregado, mesmo sabendo que ele trabalharia perpetuamente sem tal pequeno aumento.
Um pouco de dízimo talvez esteja em às vezes comprar do “salgadinho” que lhe vem à mesa – e deixar pra outros tantos dias aqueles de seu gosto.
Um pouco de dízimo talvez esteja em não se importar – e não cobrar – o arranhão no carro.
Um pouco de dízimo talvez esteja até em não brigar tanto numa partilha – ou, nem brigar.
Um pouco de dízimo talvez esteja em pagar uma “pensão” não mais obrigatória.
Um pouco de dízimo talvez esteja em deixar pra lá uma dívida a receber.
Um pouco de dízimo talvez esteja em comprar o brinquedo de madeira mesmo sabendo que a criança destinatária não ligará para ele.
Um pouco de dízimo talvez esteja em comprar o doce, mesmo que estejas diabético.
Um pouco de dízimo talvez esteja em pagar o preço mesmo que vale o que negocias, mesmo que o outro esteja com a “corda no pescoço”.
Dito isto, pode-se até argumentar que aqui confunde-se dízimo com caridade. Mas não é a caridade um involuntário dízimo?

E pode-se, sim, ter mais tempo para os filhos. O travesseiro pode, sim, vir a parecer-nos mais macio.
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx