quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Dei uma melhorada no texto da crônica que fiz comparando o LM (Módulo Lunar) a um besouro. aquela continua lá, mas lanço a nova versão aqui.

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                       E um “besouro” pousa na lua.
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         “Houston, a ‘Águia’ pousou”, anunciou Neil Armstrong, junto a Edwin “Buzz” Audrin, assim que sentiram que o trem de pouso do Módulo Lunar tocou e se acomodou ao chão da Lua. “Águia” era o “apelido oficial” do Módulo Lunar – a nave que fora projetada para pousar na Lua, decolar dela e, enfim, voar em sua “atmosfera”; Houston, o nome da cidade que abrigava o Centro de Controle de Missões da NASA – só pra situar melhor, trata-se de uma das missões tripuladas do projeto Apollo; no caso, o ‘Apollo 11’, a primeira que levou o homem a pisar na superfície do satélite natural da terra. O terceiro astronauta desta missão, Michael Collins, ficara a bordo do Módulo Duplo de Comando/Serviço – a nave que aguardava, em órbita lunar, a alunissagem (o pouso na Lua) da outra; Era julho de 1969. As horas seguintes à frase dita pelo comandante são conhecidas e, quanto a nós, vamos apenas nos ater ao espantoso engenho voador chamado Módulo Lunar.

Pois bem, entendo que, no projeto Apollo, um erro de marketing foi apelidar de “Águia” o Módulo Lunar – que de águia, afinal, não tinha nada. Observem por todos os ângulos; Observem o voo de tal nave. Assemelha-se a um besouro e não a uma águia. Sei que em sua concepção completa (ainda portando o “estágio de descida”), devido à disposição das pernas do trem de pouso, aceitava-se que se “assemelhava” a uma aranha... Mas, mesmo com aquelas quatro pernas abertas, quando voa em descida ao encontro do chão da Lua é um besouro que claramente se vê... Tem-se ali, no comportamento da carroçaria pertinente ao “estágio de descida”, tudo de um besouro em voo descendente – o “gingado”, a “ausência” de asas, a imprecisão lateral, a impressão de que não irá “frear a tempo”. 

Para a decolagem, o Módulo Lunar se tornava menos complexo, pois descartava na superfície da Lua todo o aparato necessário ao “estágio de descida”; No entanto, o que se vê autoprojetar para as alturas é, claramente, ainda um besouro. O “estágio de subida” do Módulo lunar tem, enfim, tudo de um besouro em voo ascendente – tem-se ali a “ausência” de asas, tem-se a imprecisão lateral... além da medonha impressão que não lhe haverá um “porto seguro”.

E, de fato, quanto ao besouro inseto, dá-nos a impressão que faz seu “estágio de descida” com as pernas abertas e “estagio de subida” com elas recolhidas, sendo que, em qualquer dos casos, sempre se nos apresenta destituído de asas e... sem rumo.

Também, é fato divulgado que o Módulo Lunar do Apollo 11, mesmo programado pra cumprir uma trajetória pré-determinada, ao iniciar a operação final de pouso na Lua, tomou rumo próprio e afastou-se uns seis quilômetros do “ponto x” marcado para a alunissagem. Este desnorteamento inesperado fez com que os dois astronautas interviessem e lhe tomassem, emergencialmente, o comando... Vejam que o inseto besouro assim se comporta; Vem do alto num voo até gracioso, mas nada indica que vai exatamente pousar. Como ninguém lhe toma os comandos, vai chocar-se contra um poste, parede ou lâmpada – e, depois disso, só conseguirá voar novamente se não forem sérias as avarias que certamente sofrerá em seu exoesqueleto... Pensando bem, talvez a NASA não tenha batizado o Módulo Lunar de “besouro” por precaução; pra não trazer mau agouro.

E, entende-se. Não haveria glamour algum, após o primeiro veículo tripulado de construção humana pousar em outro mundo, seu comandante avisar a base na terra: “Houston, o besouro pousou”.

Mas, partamos para algumas vantagens. Se “besouro”, as crianças iriam se interessar mais pelas miniaturas do Módulo Lunar, tornando-o mais “universal” – aquela simulação de voo que Tom Hanks faz com o brinquedo para o filho no filme ‘Apollo-13’ ficaria mais “realista” se manuseasse um “besouro” e não uma “águia”.

O Módulo Lunar, uma nave que, evidentemente, só tinha a ver com a Lua, fora, antes, experimentada aqui na terra. Se na Lua, sem atmosfera e de força gravitacional bem menor que a terrestre, ele apresentou um “voo de besouro”, ainda que satisfatório e seguro, nos testes em nossa atmosfera ficara – não há outro termo a usar – completamente “doidão” no ar. Nesses testes – documentado está – muito voo terminou com a ejeção do piloto, enquanto o “besouro lunar” se esborrachava no chão, ou num poste, ou numa parede... Isso dá uma ideia de quão complexo foi os preparativos pra se poder pousar na Lua (e escapar dela) com segurança.


Ainda quanto ao Módulo Lunar, muito mais estrambotices pode-se constatar nele.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Crônica publicada em primeira mão no jornal impresso A Gazeta (de Lavras-MG e região) em 16/10/2015 



                                   Dia do(a) Motorista


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Caso resolva sair por aí a perguntar as pessoas – especialmente àquelas que já possuam carteira de motorista – o que significa ou a que se refere a sequência de palavras Admissão, Compressão, Explosão e Descarga, a resposta que majoritariamente obterá (faça o teste!) será a seguinte: “Deixa eu ver; me é familiar... Ah, já sei, tem no livrinho da autoescola!”. Após essa resposta a conversa tenderá a parar por aí, porém haverá casos em que ocorrerá reviradas em gavetas em busca do tal livrinho da autoescola. Também, em cota ínfima, poderá acontecer o seguinte: a pessoa “lembrará” o que é Admissão e, procurando uma correlação mais segura para a palavra, a relacionará ao ato de entrar para algum emprego ou entidade – “ser admitida” e tal. Então, caso você decida ir em frente, quanto a segunda palavra – a Compressão – poderá ouvir o seguinte: “é tipo aquela borrachinha que a moça amarra no braço pra fazer o exame de sangue; ela é colocada com pressão”. Então você pede outro exemplo e ouve que “em liquidações de roupas, as que estão fora de estação, ficam com ‘preção’”. Você insiste e poderá ouvir ainda: “tem também o caso da pessoa ser boa, compreensiva”. A essas alturas você quer saber aonde vai dar a conversa e pede o significado da terceira palavra. Fica sabendo então que existe uma sobremesa de nome “explosão de chocolate”... Você faz um ar de repugnância a açúcar e ouve que há, também, a muito falada... “explosão de caixa eletrônico”. Sobra então a quarta palavra – a Descarga – e te esclarecem de imediato que “essa e fácil”, afinal, “todo mundo possui em casa”... Pois bem, se você não desiste e continua a pesquisa, poderá ocorrer, numa chance em mil, um segundo caso. Você se depararia com o seguinte: a pessoa diz que entende, sim, a sequência de palavras da qual fala e que, por sinal, são elas um resumo de sua vida, pois em situações estressantes, a princípio admite, depois compreende, mas logo explode e tem de procurar um escape qualquer... Se você pesquisa mais, poderá ainda, nesse caso numa chance em um milhão, pintar um terceiro e curioso caso. Nesse, será entendido que o que falas tem a ver mesmo é com o “Quarteto Fantástico” (aquele filme)... Entenderás que há ali um explosivo Coisa, um compreensivo Homem Borracha, uma moça que está sempre escapando, um cara que pega fogo e tal... E haverá também uma minoria que saberá, afinal, do que trata as tais quatro palavras em sequência – e, entre eles, estarão os doutores na questão que, deixando de lado o parecer do livrinho da autoescola, poderão trazer uma luz, explicando: Nos motores de combustão interna, seja obtida a explosão por pressão de compressão ou vinda de centelha de agente intermitentemente em ignição, é considerado o tempo de trabalho, unicamente a explosão, sendo que os outros três tempos são “arrastados” a fazer a sua parte – Admissão, Compressão e Escape (ou Descarga) vão “no embalo da coisa” e obedecem confecção mesma do engenho motor e, de acordo com o volume de combustível a ser admitido na câmara de explosão se determinará a dimensão tanto das válvulas de Admissão quanto das válvulas de Descarga, lembrando que, no mais, nem Nicolaus Otto (o inventor do motor) se preocupou com isso a princípio (...)... Basta!

De uma coisa dessas só pode mesmo sair é gás carbônico e, com certeza, dirige-se muito bem sem saber o que tal sequência de palavras tem a ver com o automóvel. Mas, em auxilio a quem ao menos se recordar que o enrosco está no livrinho da autoescola, fica a dica de uma resposta boa de lembrar (quase em verso, pra facilitar).

Admissão, Compressão, Explosão e Descarga é a principal coisa que faz o carro andar/ E quanto mais você “pisa” mais acontece/ E em muito acontecendo, bebe gasolina pra danar.

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sábado, 10 de outubro de 2015

                                      Um pouco de Dízimo...
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Não se visa aqui discutir o dízimo nas religiões. Temos a respeito do dízimo nos Evangelhos, no entanto. Na Bíblia tem-se muito quase que por “códigos” – daí as várias interpretações – e talvez dízimo requeira, também, outras maneiras de ser entendido.
(...) Como começar? Seria ‘um pouco dE dízimo’ ou ‘um pouco dO dízimo’? Vamos de “dE”.
Um pouco de dízimo talvez esteja na paciência em ajuntar e acondicionar latinhas e passa-las àquele moço que lhes dá tanto valor porque vendendo-as consegue completar o seu mês.
Um pouco de dízimo talvez esteja em deixar que alguém capine aquele seu lote; Em mesmo pagar o preço que esse alguém venha a pedir para fazer o serviço.
Um pouco de dízimo talvez esteja em passar a outro a pintura do muro ou da casa.
Um pouco de dízimo talvez esteja em “mandar” por cabo naquela velha panela, ou por asa na vasilha há tanto encostada.
Um pouco de dízimo talvez esteja até – sei lá! – naquele um real que lhe foi requisitado pra tomar uma cachaça.
Um pouco de dízimo talvez esteja em doar algo que já não lhe sirva.
Um pouco de dízimo talvez esteja em não recorrer tanto a uma multa, quando tens certeza que a deves.
Um pouco de dízimo talvez esteja no ato de um chefe, numa empresa, “autorizar” um pequeno aumento a algum empregado, mesmo sabendo que ele trabalharia perpetuamente sem tal pequeno aumento.
Um pouco de dízimo talvez esteja em às vezes comprar do “salgadinho” que lhe vem à mesa – e deixar pra outros tantos dias aqueles de seu gosto.
Um pouco de dízimo talvez esteja em não se importar – e não cobrar – o arranhão no carro.
Um pouco de dízimo talvez esteja até em não brigar tanto numa partilha – ou, nem brigar.
Um pouco de dízimo talvez esteja em pagar uma “pensão” não mais obrigatória.
Um pouco de dízimo talvez esteja em deixar pra lá uma dívida a receber.
Um pouco de dízimo talvez esteja em comprar o brinquedo de madeira mesmo sabendo que a criança destinatária não ligará para ele.
Um pouco de dízimo talvez esteja em comprar o doce, mesmo que estejas diabético.
Um pouco de dízimo talvez esteja em pagar o preço mesmo que vale o que negocias, mesmo que o outro esteja com a “corda no pescoço”.
Dito isto, pode-se até argumentar que aqui confunde-se dízimo com caridade. Mas não é a caridade um involuntário dízimo?

E pode-se, sim, ter mais tempo para os filhos. O travesseiro pode, sim, vir a parecer-nos mais macio.
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domingo, 27 de setembro de 2015

Em breve novas postagens. A lacuna se deu devido ao trabalho em um projeto mais extenso - e que resolvi adiar. Abraço a todos!

sábado, 1 de agosto de 2015


     
 


Discutindo futebol, religião e política.

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Dois amigos matutavam a respeito do persistente bordão “política, religião e futebol não se discute”. Perguntavam-se: o que levara temas tão dessemelhantes a serem ajuntados numa mesma categoria? – haveria fator que os unisse? Não encontraram resposta, obviamente. E após constatarem que absolutamente nada (a não ser metafóricas torneiras) poderia dar algo de comum aos referidos assuntos, restou-lhes, distintivamente, fazer deduções.

Futebol: O começo de um campeonato é como uma torneira toda aberta, jorrando água a muitos disputadores; O final é quando essa mesma torneira, já então fechada, fica unicamente sob a contemplação do vencedor. No processo, a regra é que tal torneira receberá, aos poucos, aperto para ser fechada e, assim sendo, gradativamente fará diminuir a quantidade de disputadores. A torneira atingirá seu filete mais fino quando a disputa se der entre os dois últimos – de onde sairá o vencedor. No entanto, quando a torneira receber a última apertura para ser então considerada fechada, tal instante será mínimo ao vencedor... porque a torneira “pulará” – “passará direto” – e de novo ficará escancarada, jorrando água novamente. Em sendo assim, todos os disputadores voltarão correndo a ela – será o início de novo campeonato. E isso ano após ano, década após década, século após século, milênio após milênio... Deduziram que não é vã a discussão – porém, inócua. Portanto, apenas não imprescindível.

Política: Diversas torneiras diferenciadas por cor e disponibilizadas em algum momento a cada um em particular. Uma só torneira poderá ser escolhida por cada um (que poderá optar por nenhuma) e, ao ser aberta, dará um único jato de tinta de sua respectiva cor. Cada torneira fica ligada – por canos plenamente visíveis – à sua caixa, que contêm, então, sua tinta respectiva. Todas as caixas de tinta estão à vista e contêm, em letras garrafais, dizeres com suas intenções e ainda, cada qual traz em si sua cor inerente – não há como confundir. E existe um mural (um mural vital), comum a todos, que será pintado na cor mais escolhida – que será determinada pela torneira mais vezes for aberta. Se comum a todos, de tal mural pretende-se que seja sempre íntegro... Íntegro em todos os sentidos positivos que carregam o termo. É dado a cada um escolher ao menos a cor que o mural terá por algum tempo, porque não há unanimidade nem mesmo quanto à maneira de mantê-lo íntegro. E então, após a pintura, por muito tempo uns verão no mural a cor que não escolheram e outros a cor que escolheram. Por sua vez o mural é “sensível” à cor que recebe e isso poderá alterar ou interferir – ou não – em sua recomendável condição de íntegro... Deduziram que bom é que se discuta qual torneira cada um deverá abrir; E, que nesse caso, a discussão é imprescindível e, muitas vezes, vital.

Religião: Agrupamentos de pontas de canos sem torneiras, espalhados por todos os cantos da terra, cada qual jorrando água constantemente. São agrupamentos distintos; Alguns apenas se parecem entre si e há os que são exatos opostos. Sabe-se, no entanto, que em relação a cada tipo de agrupamentos de canos, não os há em todo lugar... Mas tem-se que em todo lugar sabe-se que religião alude a uma “luta entre dois lados” – o bem contra o mal. Vem então cada um com sua torneira e a coloca num dos canos do agrupamento que desejar – ou que for instado a colocar. De qualquer maneira terá secreto e completo poder sobre ela; Poderá controlar sua abertura; poderá mantê-la fechada. Sabe-se que os agrupamentos de canos tem origem nalguma caixa que os abastece então, mas não se vê caixas e nem o caminho que os canos percorrem.  O que mais se entende é que há mais de uma caixa e que apenas uma caixa é a certa... E cada um acredita, muito evidentemente, que o agrupamento de canos em que pôs sua torneira é o que leva à caixa certa e, portanto, os outros, à caixas erradas. Mas se religião alude a uma definida “luta entre dois lados” e comumente elas escolhem um lado em comum – o do bem – muitos dos agrupamentos de canos, mesmo diferentes a quem os entenda diferentes, mesmo se de fato diferentes em sua forma, estarão vindos de uma mesmíssima caixa; recebendo, então, água de uma mesma origem. Sendo assim, muito da discussão que se dá – puderam deduzir – é imatura.

sábado, 18 de julho de 2015




                          
Banana para a crise
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Final de tarde e um sujeito em crise financeira entra num supermercado para fazer compras. Sua crise é momentânea, porém dupla. Coincidia-lhe uma crise particular em meio a essas crises gerais que se tem de tempos em tempos. Eram dias de pessoas pensativas quando à fila do banco; falantes, quando em lojas.  A criatura em compras foi pesquisando e colocando no carrinho o “bruto” necessário para o correr do mês. Claro, levaria perecíveis e, como tinha crianças em casa, acrescentaria à sua compra suco, iogurte e até dos pequenos frascos de leite fermentado. Alguma coisa, claro, não poderia ir – com sorte, as crianças já não dariam falta das caras latas de cereais as quais eram acostumadas desde o berço. Já, pra si, tinha barreiras de fato. Quando passava pelas cervejas, apenas “namorava” certa importada – recomendada por ser aprimorada.  Demorava em seu rótulo, que entendia sem par, e se abstinha de mirar o preço. Lembrou que aquilo acontecia há quase um ano e decidiu que no Natal – que já estava no horizonte – lhe daria o luxo de ter uma daquelas à mesa. Terminantemente não podia ainda, afinal nem muito bem atendidas estavam suas crianças e, muito menos ela, a “dona patroa”; Em suas compras estava indo o básico; sem um mínimo de “luxo”. E, na correria de um dia que insistia em puxar logo o outro da frente, deixava o carrinho de compras num canto e circulava as prateleiras e depois o procurava de volta e ia completando de gêneros; Era-lhe o costumeiro de fazer. Terminado, foi para a fila do caixa e então, como combinado, suas duas crianças que estavam com uma tia se juntaram a ele. E elas perguntaram logo das guloseimas e ele explicou que estava tudo no carrinho. Uma delas, em idade de entender, foi posta a passar as compras e a outra, a ajudar. Sendo assim, teve tempo de ir cumprir a promessa feita a “dona patroa” de conferir alguns preços de produtos domésticos em novas secções do mercado... Só conferir. Quando voltou estava tudo embalado e deu o cheque para o outro mês; não sem antes “reclamar” do preço. A moça do caixa lhe disse que não era o único. Enfim, levou os pacotes e acomodou-os no porta-malas do calhambeque. As crianças foram para o banco de trás e, alegres, se contorciam em cochichos.



Chegou a sua casa, levou os pacotes pra cozinha e saiu logo dali – que não era com ele. A “dona patroa” começou então a acomodação e, ajudada pelas crianças, viu logo que houvera tempo de o paizão cair na lábia delas, afinal notou que havia exagero nas compras; havia itens incomuns praqueles dias. De cada pacote aberto surgiam os conhecidos gêneros mensais, porém de qualidade mais transcendentes a seus costumes.  Não bastasse, rompiam “supérfluos” que ela própria jamais carregaria o carrinho. Ocorreu-lhe que haveria de o marido ter conseguido um aumento na firma ou, ao menos, estaria vindo, no próximo mês, o esperado “atrasado”. As crianças, por sua vez, mantinham-se jubilosas e ainda aos cochichos. Ele, atraído pelo  zum-zum diferente na cozinha, foi ver.  Olhou as compras e assustou-se; Reconhecia pouco do que colocara no carrinho. Não admira que tenha estranhado, de verdade, o preço – trocara de carrinho lá no supermercado, estava claro; pegara outro por engano... As crianças desfilavam com bigodinhos de iogurte mais refinado e foram ver TV. Olhou a mesa ainda não desocupada de todo e viu a cerveja. Ela mesma; A importada de rótulo incomparável. Abriu-a então e bebeu... Aliás, beberam.

quarta-feira, 8 de julho de 2015




                                                   


Salvemos os Pinheiros.


A cada vez que comermos pinhão ou fizermos com ele algum prato, lembremo-nos que é quase por milagre que ainda por aqui esteja; Que é fenomenal que ainda presente, a nos servir de alimento.  O pinhão pertence a uma família de vegetais das mais antigas da terra; estava lá, no “começo do mundo”. O pinhão alimentou dinossauros e resistiu ao asteroide que exterminou a estes. O pinhão é de uma época em que não existia nem o abacate e nem a abóbora, por exemplo. A árvore que nos dá o pinhão é a Araucária (ou pinheiro-do-Paraná) que é então a única da antiga família já mencionada a nos proporcionar alimento. Um alimento que sobrevive por caminhos difíceis.

A Araucária – o pinheiro específico que nos dá o pinhão – é da família chamada Gimnospermas. Já o abacate, a manga, a abóbora, o caju e outros mais que estão aí, são da família chamada Angiospermas – há ainda outras famílias vegetais de menos membros, mas de nomes igualmente ou mais esquisitos.  Bom, não vou aprofundar em Biologia, até porque era onde eu mais afundava na escola; vou apenas continuar com curiosidades sobre o pinhão.

O pinhão é de uma família diferente e então é diferente, esse é o ponto. Pinhão é semente. Ora, por definição, semente não é pra ser comida e sim pra ser plantada ou jogada fora. O pinhão é semente como as outras sementes, mas o caso é que não tem um envoltório de fruto a protegê-lo; É semente “nua”. Desenvolve-se de maneira seca, protegido apenas por uma casca mais seca ainda. Quando come-se  pinhão come-se então semente; come-se o que deveria ir para o chão germinar. Do abacate, da manga, da abobora a gente come o envoltório que protege a semente e, quanto à semente que então sobra, a plantamos ou lançamos fora. E, uma vez plantadas ou mesmo lançadas fora, poderão nos dar uma frondosa árvore e mais frutas. Já o pinhão é sua própria semente e a gente pega e leva ao fogo, cuidando de não deixar a nenhum de fora da panela. Procuramos a todos cozinhar para aproveitar o trabalho... Vê que pode-se dizer que o pinhão é “meio sem sorte”.

E como se não bastasse o pinhão é meio “enguiçado”; Não nasce em qualquer lugar. Ele “escolhe” onde nascer e, por onde nasce, outras árvores, de outras famílias, não crescem muito por perto – a Araucária se apresenta ou se forma em florestas exclusivas.  A floresta de Araucária é de clima frio e são mais comuns ao sul do Brasil, com alguma coisa no sudeste, sempre em altitudes maiores.

A família de semente “nua” do pinhão é exótica; única. A família de sementes protegidas por frutos é “comum”; numerosa. Figurativamente, pode-se dizer que Gimnospermas são Macintosh e que Angiospermas são Microsoft. Tão diferente é o pinhão e sua família que pode-se dizer que vieram de Marte, nalgum lento vento cósmico (ou será o contrário, são genuinamente terrestre e os Angiospermas é que vieram no lento vento cósmico?).

Mas, enfim, a árvore que dá o pinhão faz sua parte pra tentar manter-se no planeta. Os pinheiros ficam muito altos e quando as pinhas amadurecem e “explodem”, lançam os pinhões num raio de até cinquenta metros, para que ao menos alguns germinem e criem raízes.  Mas a gente vem e pega todo o pinhão que estiver ao alcance e não sobra nada ou pouco sobra pra poder nascer por acaso. E ainda por cima a gente corta os pinheiros pra usar a madeira. O resultado e então que hoje tem-se muito pouco das nativas florestas de Araucária...  Sorte nossa que outros animais “plantam” os pinhões. Tem-se que alguns tipos de aves e também certos roedores carregam alimentos e escondem. Espécies desses bichos vivem na floresta de Araucária e enterram pinhões no chão, em pontos diferentes. E escondem tantos que não dão conta de encontrar a todos para desenterrar e comer... E então a semente brota e assim dá chance de vir à luz do sol mais um gigantesco pinheiro.

Por falar nisso, é nos meses de Maio e Junho que as pinhas estouram e lançam ao longe os pinhões. Torçamos para que aquelas aves e aqueles roedores sejam poupados e se multipliquem sempre pra continuar a plantar mais pinhões; Que Deus continue abençoando; como vem fazendo por tanto tempo.