Banana
para a crise
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Final de tarde e um sujeito
em crise financeira entra num supermercado para fazer compras. Sua crise é momentânea,
porém dupla. Coincidia-lhe uma crise particular em meio a essas crises gerais que
se tem de tempos em tempos. Eram dias de pessoas pensativas quando à fila do
banco; falantes, quando em lojas. A
criatura em compras foi pesquisando e colocando no carrinho o “bruto” necessário
para o correr do mês. Claro, levaria perecíveis e, como tinha crianças em casa,
acrescentaria à sua compra suco, iogurte e até dos pequenos frascos de leite
fermentado. Alguma coisa, claro, não poderia ir – com sorte, as crianças já não
dariam falta das caras latas de cereais as quais eram acostumadas desde o berço.
Já, pra si, tinha barreiras de fato. Quando passava pelas cervejas, apenas “namorava”
certa importada – recomendada por ser aprimorada. Demorava em seu rótulo, que entendia sem par,
e se abstinha de mirar o preço. Lembrou que aquilo acontecia há quase um ano e
decidiu que no Natal – que já estava no horizonte – lhe daria o luxo de ter uma
daquelas à mesa. Terminantemente não podia ainda, afinal nem muito bem atendidas
estavam suas crianças e, muito menos ela, a “dona patroa”; Em suas compras
estava indo o básico; sem um mínimo de “luxo”. E, na correria de um dia que
insistia em puxar logo o outro da frente, deixava o carrinho de compras num canto
e circulava as prateleiras e depois o procurava de volta e ia completando de gêneros;
Era-lhe o costumeiro de fazer. Terminado, foi para a fila do caixa e então,
como combinado, suas duas crianças que estavam com uma tia se juntaram a ele. E
elas perguntaram logo das guloseimas e ele explicou que estava tudo no carrinho.
Uma delas, em idade de entender, foi posta a passar as compras e a outra, a ajudar.
Sendo assim, teve tempo de ir cumprir a promessa feita a “dona patroa” de
conferir alguns preços de produtos domésticos em novas secções do mercado... Só
conferir. Quando voltou estava tudo embalado e deu o cheque para o outro mês;
não sem antes “reclamar” do preço. A moça do caixa lhe disse que não era o
único. Enfim, levou os pacotes e acomodou-os no porta-malas do calhambeque. As
crianças foram para o banco de trás e, alegres, se contorciam em cochichos.
Chegou a sua casa, levou
os pacotes pra cozinha e saiu logo dali – que não era com ele. A “dona patroa”
começou então a acomodação e, ajudada pelas crianças, viu logo que houvera
tempo de o paizão cair na lábia delas, afinal notou que havia exagero nas
compras; havia itens incomuns praqueles dias. De cada pacote aberto surgiam os
conhecidos gêneros mensais, porém de qualidade mais transcendentes a seus
costumes. Não bastasse, rompiam “supérfluos”
que ela própria jamais carregaria o carrinho. Ocorreu-lhe que haveria de o
marido ter conseguido um aumento na firma ou, ao menos, estaria vindo, no
próximo mês, o esperado “atrasado”. As crianças, por sua vez, mantinham-se
jubilosas e ainda aos cochichos. Ele, atraído pelo zum-zum diferente na cozinha, foi ver. Olhou as compras e assustou-se; Reconhecia
pouco do que colocara no carrinho. Não admira que tenha estranhado, de verdade,
o preço – trocara de carrinho lá no supermercado, estava claro; pegara outro
por engano... As crianças desfilavam com bigodinhos de iogurte mais refinado e
foram ver TV. Olhou a mesa ainda não desocupada de todo e viu a cerveja. Ela
mesma; A importada de rótulo incomparável. Abriu-a então e bebeu... Aliás,
beberam.

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