sábado, 18 de julho de 2015




                          
Banana para a crise
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Final de tarde e um sujeito em crise financeira entra num supermercado para fazer compras. Sua crise é momentânea, porém dupla. Coincidia-lhe uma crise particular em meio a essas crises gerais que se tem de tempos em tempos. Eram dias de pessoas pensativas quando à fila do banco; falantes, quando em lojas.  A criatura em compras foi pesquisando e colocando no carrinho o “bruto” necessário para o correr do mês. Claro, levaria perecíveis e, como tinha crianças em casa, acrescentaria à sua compra suco, iogurte e até dos pequenos frascos de leite fermentado. Alguma coisa, claro, não poderia ir – com sorte, as crianças já não dariam falta das caras latas de cereais as quais eram acostumadas desde o berço. Já, pra si, tinha barreiras de fato. Quando passava pelas cervejas, apenas “namorava” certa importada – recomendada por ser aprimorada.  Demorava em seu rótulo, que entendia sem par, e se abstinha de mirar o preço. Lembrou que aquilo acontecia há quase um ano e decidiu que no Natal – que já estava no horizonte – lhe daria o luxo de ter uma daquelas à mesa. Terminantemente não podia ainda, afinal nem muito bem atendidas estavam suas crianças e, muito menos ela, a “dona patroa”; Em suas compras estava indo o básico; sem um mínimo de “luxo”. E, na correria de um dia que insistia em puxar logo o outro da frente, deixava o carrinho de compras num canto e circulava as prateleiras e depois o procurava de volta e ia completando de gêneros; Era-lhe o costumeiro de fazer. Terminado, foi para a fila do caixa e então, como combinado, suas duas crianças que estavam com uma tia se juntaram a ele. E elas perguntaram logo das guloseimas e ele explicou que estava tudo no carrinho. Uma delas, em idade de entender, foi posta a passar as compras e a outra, a ajudar. Sendo assim, teve tempo de ir cumprir a promessa feita a “dona patroa” de conferir alguns preços de produtos domésticos em novas secções do mercado... Só conferir. Quando voltou estava tudo embalado e deu o cheque para o outro mês; não sem antes “reclamar” do preço. A moça do caixa lhe disse que não era o único. Enfim, levou os pacotes e acomodou-os no porta-malas do calhambeque. As crianças foram para o banco de trás e, alegres, se contorciam em cochichos.



Chegou a sua casa, levou os pacotes pra cozinha e saiu logo dali – que não era com ele. A “dona patroa” começou então a acomodação e, ajudada pelas crianças, viu logo que houvera tempo de o paizão cair na lábia delas, afinal notou que havia exagero nas compras; havia itens incomuns praqueles dias. De cada pacote aberto surgiam os conhecidos gêneros mensais, porém de qualidade mais transcendentes a seus costumes.  Não bastasse, rompiam “supérfluos” que ela própria jamais carregaria o carrinho. Ocorreu-lhe que haveria de o marido ter conseguido um aumento na firma ou, ao menos, estaria vindo, no próximo mês, o esperado “atrasado”. As crianças, por sua vez, mantinham-se jubilosas e ainda aos cochichos. Ele, atraído pelo  zum-zum diferente na cozinha, foi ver.  Olhou as compras e assustou-se; Reconhecia pouco do que colocara no carrinho. Não admira que tenha estranhado, de verdade, o preço – trocara de carrinho lá no supermercado, estava claro; pegara outro por engano... As crianças desfilavam com bigodinhos de iogurte mais refinado e foram ver TV. Olhou a mesa ainda não desocupada de todo e viu a cerveja. Ela mesma; A importada de rótulo incomparável. Abriu-a então e bebeu... Aliás, beberam.

quarta-feira, 8 de julho de 2015




                                                   


Salvemos os Pinheiros.


A cada vez que comermos pinhão ou fizermos com ele algum prato, lembremo-nos que é quase por milagre que ainda por aqui esteja; Que é fenomenal que ainda presente, a nos servir de alimento.  O pinhão pertence a uma família de vegetais das mais antigas da terra; estava lá, no “começo do mundo”. O pinhão alimentou dinossauros e resistiu ao asteroide que exterminou a estes. O pinhão é de uma época em que não existia nem o abacate e nem a abóbora, por exemplo. A árvore que nos dá o pinhão é a Araucária (ou pinheiro-do-Paraná) que é então a única da antiga família já mencionada a nos proporcionar alimento. Um alimento que sobrevive por caminhos difíceis.

A Araucária – o pinheiro específico que nos dá o pinhão – é da família chamada Gimnospermas. Já o abacate, a manga, a abóbora, o caju e outros mais que estão aí, são da família chamada Angiospermas – há ainda outras famílias vegetais de menos membros, mas de nomes igualmente ou mais esquisitos.  Bom, não vou aprofundar em Biologia, até porque era onde eu mais afundava na escola; vou apenas continuar com curiosidades sobre o pinhão.

O pinhão é de uma família diferente e então é diferente, esse é o ponto. Pinhão é semente. Ora, por definição, semente não é pra ser comida e sim pra ser plantada ou jogada fora. O pinhão é semente como as outras sementes, mas o caso é que não tem um envoltório de fruto a protegê-lo; É semente “nua”. Desenvolve-se de maneira seca, protegido apenas por uma casca mais seca ainda. Quando come-se  pinhão come-se então semente; come-se o que deveria ir para o chão germinar. Do abacate, da manga, da abobora a gente come o envoltório que protege a semente e, quanto à semente que então sobra, a plantamos ou lançamos fora. E, uma vez plantadas ou mesmo lançadas fora, poderão nos dar uma frondosa árvore e mais frutas. Já o pinhão é sua própria semente e a gente pega e leva ao fogo, cuidando de não deixar a nenhum de fora da panela. Procuramos a todos cozinhar para aproveitar o trabalho... Vê que pode-se dizer que o pinhão é “meio sem sorte”.

E como se não bastasse o pinhão é meio “enguiçado”; Não nasce em qualquer lugar. Ele “escolhe” onde nascer e, por onde nasce, outras árvores, de outras famílias, não crescem muito por perto – a Araucária se apresenta ou se forma em florestas exclusivas.  A floresta de Araucária é de clima frio e são mais comuns ao sul do Brasil, com alguma coisa no sudeste, sempre em altitudes maiores.

A família de semente “nua” do pinhão é exótica; única. A família de sementes protegidas por frutos é “comum”; numerosa. Figurativamente, pode-se dizer que Gimnospermas são Macintosh e que Angiospermas são Microsoft. Tão diferente é o pinhão e sua família que pode-se dizer que vieram de Marte, nalgum lento vento cósmico (ou será o contrário, são genuinamente terrestre e os Angiospermas é que vieram no lento vento cósmico?).

Mas, enfim, a árvore que dá o pinhão faz sua parte pra tentar manter-se no planeta. Os pinheiros ficam muito altos e quando as pinhas amadurecem e “explodem”, lançam os pinhões num raio de até cinquenta metros, para que ao menos alguns germinem e criem raízes.  Mas a gente vem e pega todo o pinhão que estiver ao alcance e não sobra nada ou pouco sobra pra poder nascer por acaso. E ainda por cima a gente corta os pinheiros pra usar a madeira. O resultado e então que hoje tem-se muito pouco das nativas florestas de Araucária...  Sorte nossa que outros animais “plantam” os pinhões. Tem-se que alguns tipos de aves e também certos roedores carregam alimentos e escondem. Espécies desses bichos vivem na floresta de Araucária e enterram pinhões no chão, em pontos diferentes. E escondem tantos que não dão conta de encontrar a todos para desenterrar e comer... E então a semente brota e assim dá chance de vir à luz do sol mais um gigantesco pinheiro.

Por falar nisso, é nos meses de Maio e Junho que as pinhas estouram e lançam ao longe os pinhões. Torçamos para que aquelas aves e aqueles roedores sejam poupados e se multipliquem sempre pra continuar a plantar mais pinhões; Que Deus continue abençoando; como vem fazendo por tanto tempo.