Torcedor morno
---------------------------------
É fantástico o futebol. E também
indispensável; Afinal faz dinheiro e dá fluxo a ele em nosso insubstituível
mundo capitalista; assim o entendo. Se, no entanto, como competição ou simples
bate-papo, o assunto vira pra ele, logo “recolho-me à minha insignificância” em
relação a; Desde muito. Às vezes “só observo”, pra sacar algum lance divertido
– que, afinal, aparece sempre. Ao observar também aprendo; Como ocorreu.
Foi durante uma “copa do mundo”, faz tempo e não me lembro a qual, havia uma febre de se torcer contra o time argentino, e estava ele tido como “favorito”. No meu trabalho, entre colegas, nas rodinhas sobre o assunto, debatiam e queriam porque queriam que a Argentina “voltasse logo pra casa”; de preferência nas oitavas de final, lembro. Alguns chegavam a fazer contorcionismo matemático, a relembrar jogos passados e concluíam: a Argentina não passaria das “quartas” e por aí ia. Mas aquele time foi indo em frente e, quase já ao final do campeonato, teria que enfrentar um adversário também considerado favorito. De tanto ouvir falar resolvi que iria assistir ao referido jogo.
Deu hora e fui pra frente do televisor. Torcia contra a Argentina e então torcia para que o outro time fosse melhor em campo. Teria que ser superior a ponto de colocar a Argentina “debaixo do chinelo” – era o que queria ver. Queria que os “hermanos” saíssem de campo de cabeça baixa, o que significaria, ademais, que não eram assim os “reis da cocada preta”. Com esse pensamento me armei.
De fato eram dois times bons e a coisa andou quente; Não havia como não entender que era um bom jogo de futebol. No entanto a cada minuto que passava o time argentino ia criando mais condições de chegar ao gol. Pois bem, e ele marcou primeiro... Mas logo a seguir levou um gol. Com o jogo empatado no início do segundo tempo, toda a etapa foi tensa e, ali beirando ao final – tanto que já falavam em prorrogação do jogo – o outro time, num lance feio, enfiou um segundo gol no time argentino... Não haveria tempo para um empate; Nenhum time conseguiria empatar. A Argentina estava sendo mandada de volta pra casa. O lance foi demorado de entender, mas o juiz apitou gol e gol apitado (tal qual quando se leva uma multa de trânsito) era gol e pronto. Enquanto o locutor urrava de felicidade a câmera flagrava os jogadores comemorando e sua torcida sorridente nas arquibancadas. Quanto aos argentinos, nos lances em que se os mostrava, via-se que estavam não apenas perplexos, mas a reclamar do lance do gol... e assim também se deu com sua torcida nas arquibancadas. O locutor logo explicou que não aceitavam o gol; que, alegavam, teria sido “roubado”. Mas deu-se que o resultado era aquele mesmo e veio o apito final. O time argentino, visivelmente, merecia ter ganhado o jogo, no entanto, perdera; Perdera para um time que então ganhara... “roubado” – ao menos isso é o que passara a ser “admitido” por metade da plateia.
A partir de então, não via a hora de ouvir os comentários em meio à turma no trabalho. Estaríamos todos felizes, claro, mas o jogo, como espetáculo, não tinha sido exatamente um primor devido ao resultado “duvidoso”.
E, nas conversas, pra minha surpresa, o tom foi morno; A Argentina era carta fora do baralho e pronto; O importante já era tocar a bola pra frente, tanto que às vezes se fazia blocos de silêncio entre as conversações. Mas não é que, de um dos debatedores, a quebrar um desses blocos de silêncio, veio uma grande sacada... com as seguintes palavras: “Gente, ver a Argentina perder já é bom, mas vê-la perder por gol roubado faz a cerveja descer mais macia; É felicidade em dobro, gente!”. Fosse hoje talvez dissesse mais ou menos isso: ‘Gente – ver a Argentina perder jogando mal vale uma cerveja; vê-la jogando bem e ainda assim perder vale duas cervejas, mas vê-la jogar bem e perder por gol roubado... não tem preço’.
Em sendo assim descobri que há mais de uma maneira de torcer contra, e não unicamente aquela maneira monótona a qual eu conhecia.
------------------
Carlos Antonio Pinto (em 29-05-2015 no jornal impresso A Gazeta - Lavras-MG)
-----------------
Foi durante uma “copa do mundo”, faz tempo e não me lembro a qual, havia uma febre de se torcer contra o time argentino, e estava ele tido como “favorito”. No meu trabalho, entre colegas, nas rodinhas sobre o assunto, debatiam e queriam porque queriam que a Argentina “voltasse logo pra casa”; de preferência nas oitavas de final, lembro. Alguns chegavam a fazer contorcionismo matemático, a relembrar jogos passados e concluíam: a Argentina não passaria das “quartas” e por aí ia. Mas aquele time foi indo em frente e, quase já ao final do campeonato, teria que enfrentar um adversário também considerado favorito. De tanto ouvir falar resolvi que iria assistir ao referido jogo.
Deu hora e fui pra frente do televisor. Torcia contra a Argentina e então torcia para que o outro time fosse melhor em campo. Teria que ser superior a ponto de colocar a Argentina “debaixo do chinelo” – era o que queria ver. Queria que os “hermanos” saíssem de campo de cabeça baixa, o que significaria, ademais, que não eram assim os “reis da cocada preta”. Com esse pensamento me armei.
De fato eram dois times bons e a coisa andou quente; Não havia como não entender que era um bom jogo de futebol. No entanto a cada minuto que passava o time argentino ia criando mais condições de chegar ao gol. Pois bem, e ele marcou primeiro... Mas logo a seguir levou um gol. Com o jogo empatado no início do segundo tempo, toda a etapa foi tensa e, ali beirando ao final – tanto que já falavam em prorrogação do jogo – o outro time, num lance feio, enfiou um segundo gol no time argentino... Não haveria tempo para um empate; Nenhum time conseguiria empatar. A Argentina estava sendo mandada de volta pra casa. O lance foi demorado de entender, mas o juiz apitou gol e gol apitado (tal qual quando se leva uma multa de trânsito) era gol e pronto. Enquanto o locutor urrava de felicidade a câmera flagrava os jogadores comemorando e sua torcida sorridente nas arquibancadas. Quanto aos argentinos, nos lances em que se os mostrava, via-se que estavam não apenas perplexos, mas a reclamar do lance do gol... e assim também se deu com sua torcida nas arquibancadas. O locutor logo explicou que não aceitavam o gol; que, alegavam, teria sido “roubado”. Mas deu-se que o resultado era aquele mesmo e veio o apito final. O time argentino, visivelmente, merecia ter ganhado o jogo, no entanto, perdera; Perdera para um time que então ganhara... “roubado” – ao menos isso é o que passara a ser “admitido” por metade da plateia.
A partir de então, não via a hora de ouvir os comentários em meio à turma no trabalho. Estaríamos todos felizes, claro, mas o jogo, como espetáculo, não tinha sido exatamente um primor devido ao resultado “duvidoso”.
E, nas conversas, pra minha surpresa, o tom foi morno; A Argentina era carta fora do baralho e pronto; O importante já era tocar a bola pra frente, tanto que às vezes se fazia blocos de silêncio entre as conversações. Mas não é que, de um dos debatedores, a quebrar um desses blocos de silêncio, veio uma grande sacada... com as seguintes palavras: “Gente, ver a Argentina perder já é bom, mas vê-la perder por gol roubado faz a cerveja descer mais macia; É felicidade em dobro, gente!”. Fosse hoje talvez dissesse mais ou menos isso: ‘Gente – ver a Argentina perder jogando mal vale uma cerveja; vê-la jogando bem e ainda assim perder vale duas cervejas, mas vê-la jogar bem e perder por gol roubado... não tem preço’.
Em sendo assim descobri que há mais de uma maneira de torcer contra, e não unicamente aquela maneira monótona a qual eu conhecia.
-----------------

Nenhum comentário:
Postar um comentário