Jesus e o cinema.
Desde criança a gente vê quadros e pinturas que
trazem um pretenso rosto de Jesus Cristo. Lembro-me de dois quadros, ambos bastante
convincentes quanto à intenção, mas que me chamaram a atenção pelo fato de
trazerem rostos bastante diferentes entre si
Com pouco material de pesquisa à época deixei
passar, mas com o advento da internet descobri que um rosto era o do ator
Robert Powell e o outro rosto era o do ator Jeffrey Hunter. Então a memória me
avisou que, quando adolescente ou criança, os vi em filmes relativos à “Vida de
Cristo”. Sim, aqueles rostos saíram dos filmes direto para os quadros e
pinturas. Recentemente, pesquisando mais, vi o quanto acertaram na escolha os diretores
em relação à escolha dos atores citados. Num dos casos aconteceu que, mesmo fora
do ‘set de filmagem’, figurantes secundários caíam de joelhos quando passava
por eles o ator caracterizado de Jesus Cristo. No outro é quase possível
acreditar que o rosto de Jesus era aquele mesmo; que tinha-se até, naquelas
filmagens, um “milagre” qualquer acontecendo.
São antigos os filmes que relacionei e, sobre o
mesmo tema, fizeram outros filmes antes e depois. Desde o primeiro até o mais
recente figuraram diversos atores que então tiveram seu rosto a representar o
de Jesus, sendo ainda que alguns entraram para o rol de representar Jesus em quadros
e pinturas. Se amanhã fizerem outros filmes, teremos outros atores e, portanto,
mais “rostos de Jesus” acrescentados à lista.
O evento de filmes enquadrados no termo “Vida de Cristo” vem assim
caminhando no decorrer do tempo... Mas vou ao ponto em que quero chegar.
A todo evento sujeito a percorrer eras com tema único, quando sua exibição atinge a soma de anos equivalente a quando se torna adulto o homem, diz-se de imediato que “atingiu a maioridade”. A pergunta é: quando a indústria do cinema (que seja a Hollywoodiana) atingirá a maturidade em relação aos filmes sobre a “Vida de Cristo”?
Penso que um filme “maduro” sobre a “Vida de Cristo”
não mostraria o rosto do ator ou, que seja, não mostraria o “rosto de Cristo”.
Dentro desse hipotético filme, quando um figurante
ou personagem contemplasse a face de Jesus, a câmera seria colocada de maneira
a ver o rosto desse figurante ou personagem e esse figurante ou personagem “passaria”
ao espectador o que viu. Quando fosse Jesus andar entre a multidão, seus olhos em
dado momento é que seriam a câmera (em primeira pessoa); Quem lhe abrisse
caminho – e então Lhe olhasse – ficaria encarregado de transmitir (ao
espectador), por seu espanto ou admiração, como seria o Seu semblante.
Claro que, ao gosto do diretor haveriam tomadas em
que revelariam o quão cabeludo e o quão alto seria Jesus, por exemplo, mas
sempre sem mostrar o rosto do ator (portanto sem mostrar o “rosto” de Jesus) –
nem mesmo de perfil.
Evidentemente tal filme, como todos os outros,
trataria do assunto de acordo com os quatro Evangelhos canônicos e consideraria
também as profecias relativas, mas com a novidade de deixar ao espectador a
incumbência de imaginar como seria a face de Jesus.
Certamente que um filme assim não seria no mesmo
ritmo dos que já foram feitos e teriam que acrescentar ainda mais novidades em
relação à posição das câmeras de filmagem e também disponibilizar outros
truques – e, por sinal, tem o cinema condições de inovar mais ainda no quesito
abordado.
Ah, sim, claro! Em se fazendo um filme assim, que o
público não venha a saber quem figurou com o manto sagrado em meio à multidão;
Que não fique sabendo quem, afinal, “carregou” a cruz nas filmagens. Enfim, que
o público não venha a saber quem fez o papel de Jesus – que o ator não figure
em capas de revista e nem dê entrevistas... Senão teríamos uma volta à estaca
zero.
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Carlos Antonio Pinto (no jornal A Gazeta em 12-06-2015)
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