O Polivalente de Lavras e o Xisto Betuminoso
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A maior reserva de Xisto Betuminoso do
mundo está nos EUA. Levou tempo, mas desenvolveram tecnologia de extração que o
torna viável. Sendo assim os americanos diminuíram sua dependência de
importação de petróleo. Pois bem, devido à influência que teve na recente queda
do preço mundial do barril de petróleo, o Xisto ocupou muito do noticiário no
início do ano. Mas deixo momentaneamente de lado o Xisto e vou falar do Colégio
Polivalente (E. E. Dora Matarazzo) de Lavras... Depois junto as duas coisas.
Era 1971 e de minha casa ouvia as
máquinas trabalhando no canteiro de obras do que viria a ser o Polivalente – se
não me engano trabalhavam também à noite. Morava ali por perto e, quando dia,
ia com amiguinhos buscar toquinhos de madeira que ficavam misturados à terra
que era arrastada pelos tratores; Era um tempo ainda de fogões a lenha e
levávamos pra casa punhado de tal toquinho. Pois sim, três anos depois estava
lá, estudando no Polivalente. Vindo de uma simplória escola primária feita em
lata, uma vez ali, me senti um rei, acho eu. O Polivalente trazia pilastras
fortes como as das pontes. Algumas salas eram incomuns e continham colossais
mesas de madeira e maquinários indecifráveis à maioria. A biblioteca tinha
infinitos corredores de estantes cheias e era mais ampla que as salas de aula.
As salas de aula, por sua vez, eram arejadas, amplas e de tal maneira
imponentes que maravilhavam e convidavam a adentra-las afoitamente. Por sinal,
adentrar afoitamente as salas de aula era coisa feita pelos alunos cinco vezes
ao dia; Porque havia a sala exclusiva de ciências, a de matemática, a de
português e assim por diante... O professor é que permanecia na sala, a qual
era correspondente à sua matéria. O prédio, com respeitável espaço interno
separando as salas, permitia um corre-corre sem atropelos. Ainda quanto às
salas de aula, traziam em seu interior – talvez involuntariamente, não sei! –
um modo arquitetônico que lembrava figuras geométricas e aquilo, na linha do
tempo, talvez tenha entusiasmado a muitos aos estudos. Indo para fora, o espaço de entorno do prédio
era vasto, tendo sempre ao longe a forte cerca de arame, meticulosamente
entrelaçada de arbustos. Entre a cerca e o prédio havia mais arbustos,
enfeitando e delineando espaços. Por sua vez, os espaços pareciam ser em
blocos; Blocos que começavam dentro do prédio e se davam um após outro até
escapar ao exterior e, para qualquer lado que voltassem, contornavam livremente
o prédio e iam fechar com as quadras de ginásticas e jogos. Como se não
bastasse, depois das quadras, mais espaços; estes destinados a trazer
utilidades futuras. No Polivalente até mesmo as escadas, tanto as internas
quanto as externas, pareciam estar dispostas de modo a trazer júbilo aos
alunos, se subido-as ou descendo. E era aquele colégio – convínhamos alguns –
maior do que se podia entender, porque “víamos” alas misteriosas, alas
inacessíveis e alas aparentemente desprezadas. A mim foi maior do que pude aproveitar,
afinal, escapou-me a “Fanfarra” – o que, de pronto, tantos outros nela fizeram
bonito e era, a todos, motivo de orgulho. Aquele Polivalente era tão
maravilhoso por suas dimensões que não admira se acaso tenha ficado nalgumas
memórias também como um parque de diversões perfeito... Embora, poder-se-ia
dizer, tudo ali requeria – e impunha – uma saudável disciplina. Criançola, não
me ocorreu de questionar o porquê de me entregarem de graça tanta
suntuosidade... Mas, vou ao ponto que quero considerar. Vamos unir o
Polivalente ao Xisto Betuminoso.
Aprendi ali, não lembro em que série,
alguma coisa referente ao Xisto; Lembro-me – como de outras – passagens das
aulas de Geografia. Quando recentemente o noticiário tratou do assunto eu sabia
do que falavam, afinal... “aprendi na escola”. Então puxei conversas sobre o
Xisto com muitos; por uns dias. Pra minha surpresa, muitos de vinte, de trinta
anos de idade, não tinham a menor ideia do que se tratava. Claro que um assunto
tão prescindível desses pode ser facilmente esquecido; E ainda, minha
“pesquisa” não dá mesmo uma amostra nem perto de séria. Por outra, não sei se
figuram nos livros didáticos “atuais”, assuntos daquela época; Uso o Xisto
porque veio à ordem do dia. Pois bem, a quem quis (e havia-os), falei o que
sabia sobre o assunto. Graças àquela escola, não fiquei “boiando” durante um
assunto “quente” dos noticiários. Penso que estava certo o colégio que me
ensinara até sobre “um tal” Xisto
Betuminoso.
Constato, enfim, que ali a imponência
estava também no modo como era aplicado o ensino. Um obrigado àquele colégio
Polivalente; àqueles professores e professoras. Se não aprendi mais, a culpa
foi só minha.
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Carlos Antonio Pinto (em 19-06-2015 no jornal lavrense impresso A GAZETA)
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